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História sobre o esporte 11 a 12 anos Leitura 13 min.

As borbulhas da coragem da Leonor

Leonor enfrenta o medo de aprender a nadar, encontra apoio numa colega e num treinador que a ajuda com pequenas técnicas e encorajamento; aos poucos descobre que errar é informação e que coragem também se constrói com ajuda e pausas.

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Uma menina de 12 anos, rosto arredondado com leves sardas, cabelo castanho preso em rabo de cavalo, expressão ansiosa e resoluta, segura uma grande prancha de natação azul e chuta na água com pequenas bolhas brancas atrás dos pés; uma colega de ~11 anos, cabelo curto e óculos redondos, sorri e imita o ritmo das pernas logo atrás, enquanto um treinador adulto de ~35 anos, pele clara, camiseta vermelha e apito, está à beira da piscina dando instruções com olhar calmo; piscina coberta de azulejos brancos e azuis, linhas de corredor amarelas e pretas na superfície, água limpa com reflexos, janelas altas deixando entrar luz suave e chão molhado com marcas de passos; cena: treino de batimentos de pernas com prancha, nervosismo transformado em esforço concentrado, atmosfera dinâmica e acolhedora. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A mochila molhada e o frio na barriga

A Leonor tinha onze anos e um caderno onde escrevia listas. Lista de músicas para ouvir. Lista de filmes para ver. Lista de coisas que queria aprender “um dia”, sem data.

Nessa terça-feira, a palavra “natação” aparecia no topo, sublinhada duas vezes.

Ela fechou a mochila com um puxão e ficou a olhar para a toalha enrolada, como se a toalha pudesse falar.

— Não é um tubarão, é só a piscina — disse a mãe, na porta. A voz vinha com aquele tom leve de quem tenta fazer graça sem exagerar.

— Eu sei… — Leonor respondeu, mas o “eu sei” saiu mais baixinho do que pretendia.

O problema não era água. Ela tomava banho, lavava o cabelo, brincava com espuma. O problema era o momento antes: chegar, ver toda a gente a mexer-se com confiança, e sentir que o corpo dela ainda estava a aprender a mesma língua.

No carro, as luzes dos postes riscavam o vidro. Leonor apertou o fecho da mochila com os dedos.

— Estás com nervos? — perguntou a mãe, sem virar a cabeça, como quem pergunta com cuidado.

— Um bocado. Quer dizer… muito.

A mãe fez uma pausa e disse:

— O nervosismo é como um apito antes do jogo. Só está a avisar que isto importa para ti. Não manda em ti.

Leonor tentou acreditar. O estômago dava cambalhotas pequenas.

Quando chegaram, o cheiro a cloro foi como uma porta a abrir. As vozes ecoavam, a água batia nas bordas, e os passos molhados faziam um som de “ploc, ploc” no chão.

No balneário, uma rapariga de cabelo curto e óculos sorriu para ela.

— Olá! Tu és nova? Eu sou a Inês.

— Leonor — respondeu, ajeitando o fato de banho como se ele fosse um segredo.

— Não te preocupes, hoje é treino com prancha. É fixe. As pernas é que fazem o trabalho todo, tipo motor.

Leonor engoliu em seco. Motor? O dela às vezes engasgava.

Ela entrou na zona da piscina com as chinelas a escorregar um pouco e o coração a bater como se quisesse fugir primeiro e perguntar depois.

Capítulo 2 — A prancha azul e o “um, dois, respira”

O treinador chamava-se Tiago e tinha um apito ao pescoço que parecia ter vida própria. Ele reuniu o grupo junto à borda.

— Hoje vamos trabalhar batimentos de pernas com prancha. Quero pés soltos, joelhos pouco dobrados e água a borbulhar atrás de vocês. Nada de pancada seca, combinado?

Ele mostrou com as mãos, como se desenhasse o movimento no ar.

Leonor pegou numa prancha azul. Era leve, mas, por alguma razão, parecia pesada como uma responsabilidade. Ao lado, a Inês abanou a prancha como se fosse uma bandeira.

— Pronta, Leonor? Se eu engolir água, fazes-me uma piada para eu não chorar.

Leonor soltou uma risada curta. O som saiu meio preso, mas saiu.

As crianças alinharam-se. Tiago apontou para Leonor e para a Inês.

— Vocês duas, podem ir juntas na mesma raia. Uma segue a outra, e depois trocam.

Leonor pôs as mãos na prancha, braços esticados. A borda da piscina estava fria. Ela respirou fundo e entrou, devagar, sentindo a água abraçar o corpo.

“Não deixa o medo decidir”, ela pensou. Mas o medo estava ali, como um colega de turma que aparece sempre sem ser convidado.

Tiago aproximou-se.

— Leonor, olha para mim. Faz assim: inspira pelo nariz, conta dois, solta pela boca. O corpo aprende mais depressa quando a cabeça abranda.

— Está bem — disse ela, e tentou.

Inspirou. Um, dois. Expirou. A garganta relaxou um pouco.

— Agora, batimentos. Pequenos e rápidos. Imagina que estás a sacudir areia dos pés.

Leonor começou. As pernas mexiam-se, mas nem sempre do jeito certo. Às vezes, dobrava os joelhos demais e parecia que estava a pedalar uma bicicleta invisível.

A Inês, atrás, sussurrou:

— Se pedalares, pelo menos chegamos mais rápido ao lanche.

Leonor quase engoliu água de tanto rir e levantou a cabeça.

— Não fala isso agora!

— Desculpa! — Inês respondeu, rindo também, e fez silêncio… por dois segundos.

Leonor voltou a olhar para a prancha e concentrou-se. “Sacudir areia”, repetiu por dentro. Aos poucos, a água atrás dos pés começou a fazer pequenas bolhas. Não era uma tempestade, mas era um começo.

Quando tocou na parede do outro lado, ela ficou orgulhosa e cansada ao mesmo tempo, como se tivesse carregado um balde invisível.

— Boa! — disse Tiago. — Vi melhor borbulha agora. É isso.

Leonor sentiu o peito aquecer. O frio na barriga ainda existia, mas já não ocupava tudo.

Capítulo 3 — O primeiro erro e a coragem de voltar

No exercício seguinte, o grupo tinha de fazer o mesmo percurso, mas com um ritmo mais constante. Tiago explicou:

— Não quero velocidade louca. Quero regularidade. No desporto, o corpo gosta de padrões.

Leonor assentiu. “Padrões eu sei fazer”, pensou. Ela era boa a organizar a secretária, a arrumar lápis por cores, a manter segredos bem guardados.

Mas na água, os padrões escapavam.

Ela empurrou a parede e começou a bater as pernas. Tentou ser constante. Só que, a meio, o nervosismo voltou como uma onda pequena que, mesmo pequena, empurra.

Ela levantou a cabeça para ver se estava a ir bem. Ao levantar, a prancha inclinou-se e entrou água. Leonor engasgou-se, tossiu, e o som ecoou.

Por um segundo, veio a vontade de sair logo da piscina, de fingir que a aula tinha acabado de repente, de desaparecer no balneário e virar pedra.

A Inês aproximou-se, sem encostar, mas perto o suficiente para ser companhia.

— Ei… acontece. Eu, no ano passado, engoli água e espirrei cloro na cara do treinador. Juro. Parecia um dragão triste.

Leonor riu, tossindo ainda.

— A sério?

— A sério. Ele ficou com uma expressão tipo “por favor, não”. E depois disse: “muito bem, Inês, excelente… entusiasmo”.

Leonor levou a mão à boca, tentando não rir alto demais.

Tiago nadou até elas, calmo.

— Leonor, estás bem?

— Estou… só me engasguei.

— Ótimo. Então faz uma coisa: para já, segura a prancha mais firme e mantém o queixo perto da água. Se precisares de respirar, vira a cabeça um pouco para o lado, não levantes tudo. E lembra-te do “um, dois, respira”.

Leonor assentiu. O coração tinha acelerado, mas ouvir instruções claras ajudou, como se alguém tivesse acendido uma luz no caminho.

Ela encostou à parede, respirou fundo. Um, dois. Soltou o ar.

— Queres que eu vá à tua frente? — perguntou a Inês. — Assim copias o meu ritmo.

— Quero — disse Leonor, surpreendida por admitir o que precisava.

A Inês partiu primeiro, batendo as pernas com uma cadência que parecia música. Leonor foi atrás, imitando o som das bolhas. No meio do percurso, sentiu-se mais segura. Ainda falhava às vezes, mas agora sabia voltar ao que funcionava.

Quando chegou ao fim, Tiago levantou o polegar.

— Viste? Errar não é o fim. É informação.

Leonor repetiu a frase na cabeça: “É informação”. Soava inteligente e, principalmente, possível.

Capítulo 4 — Cooperação em modo “equipa de prancha”

Na parte seguinte do treino, Tiago propôs um desafio:

— Vamos fazer em duplas. Uma pessoa com prancha faz batimentos de pernas até meio da piscina, e a outra vai ao lado, sem prancha, só acompanhando, a dar apoio e ritmo. Depois trocam.

Leonor sentiu um pequeno alarme: “sem prancha?” Mas Tiago acrescentou:

— Apoio não é puxar nem empurrar. É estar presente. Às vezes, a presença é o melhor empurrão.

A Inês arregalou os olhos.

— Eu quero ser a tua dupla, Leonor. Prometo não fazer piadas na parte difícil.

— Prometes mesmo? — Leonor perguntou, estreitando os olhos, fingindo ser severa.

— Prometo… mais ou menos.

Leonor riu. O riso, desta vez, saiu solto.

Primeiro, Leonor fez com a prancha. A Inês foi ao lado, a mexer as pernas devagar, como se estivesse a passear.

— Um-dois, um-dois — sussurrou ela. — Borbulha, borbulha.

Leonor sentiu que ter alguém ali ajudava. Não porque a Inês fosse salvar alguma coisa, mas porque o silêncio deixava de parecer tão grande. As bolhas aumentaram. Os pés ficaram mais soltos. Ela conseguiu manter o queixo perto da água.

Ao chegar ao meio, trocou com a Inês. Agora era Leonor quem acompanhava. Sem prancha, ela manteve-se junto, devagar, e percebeu que a Inês também se esforçava, apesar de parecer sempre confiante.

A Inês fez uma careta.

— As minhas pernas estão a reclamar. Estão a dizer “por que é que nos meteste nisto?”

Leonor respondeu:

— Diz-lhes que é para ficarem mais fortes. E que depois podem descansar em paz… no sofá.

— Sofá é o meu desporto favorito — disse a Inês.

— O meu é dormir — Leonor devolveu, e as duas riram.

Nesse momento, Leonor percebeu uma coisa simples e boa: na água, ninguém era perfeito o tempo todo. Cada um tinha o seu “apito” por dentro — o nervosismo, o cansaço, a vontade de desistir — e, mesmo assim, continuavam.

Quando o treino terminou, Tiago reuniu o grupo.

— Hoje vi cooperação. Vi coragem. E vi pernas a trabalhar melhor. Parabéns.

Leonor saiu da piscina com os braços pesados e uma sensação nova: a de ter pertencido àquele lugar, nem que fosse por um pedacinho de aula.

Capítulo 5 — O trac em palavras e um plano pequenino

À noite, em casa, Leonor tomou banho e sentiu o corpo a pedir descanso. As pernas estavam cansadas de um jeito satisfatório, como depois de uma caminhada longa.

Durante o jantar, o pai perguntou:

— Então, como correu?

Leonor mexeu no arroz com o garfo.

— Tive nervos. Engasguei-me. Mas depois consegui fazer batimentos com a prancha melhor. E… tive uma dupla.

— Boa — disse o pai. — E o nervosismo?

Leonor pensou. Não queria mentir, mas também não queria dar demasiada importância ao medo.

— Ele apareceu. Mas não ficou a mandar.

A mãe sorriu, orgulhosa sem exagero.

Mais tarde, já de pijama, Leonor abriu o caderno de listas. Em vez de “um dia”, escreveu:

“Na próxima aula:

1) Respirar: um, dois, solta.

2) Batimentos pequenos, como sacudir areia.

3) Pedir ajuda se precisar.

4) Parar antes de ficar exausta.”

Ela ficou a olhar para o número 4. Parecia estranho escrever “parar” como uma coisa boa. Mas lembrava-se da tosse, do susto, do corpo a precisar de calma.

No quarto, a luz do candeeiro fazia um círculo dourado na parede. Leonor deitou-se e ouviu a casa a ficar silenciosa.

Pensou na Inês a dizer “dragão triste”. Pensou nas bolhas atrás dos pés. Pensou no treinador a dizer “errar é informação”.

E decidiu que, na próxima sessão, ia ter coragem de uma maneira mais inteligente: ia esforçar-se, sim, mas também ia poupar energia, ouvir o corpo e sair da água antes do cansaço virar pânico.

Ela fechou os olhos com a certeza tranquila de quem aprendeu uma coisa importante: controlar o trac não é expulsá-lo. É aprender a navegar com ele, devagar, com ajuda, e com pausas no momento certo.

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Cambalhotas
Movimentos do corpo que giram ou viram, como pequenas voltas no estômago.
Apito
Objeto que faz um som agudo para chamar atenção ou dar instruções.
Raia
Espaço estreito da piscina onde uma pessoa nada, separado por cordas.
Prancha
Peça de espuma que se segura para treinar pernas ao nadar.
Engasguei-me
Quando entra água ou comida na garganta e causa tosse ou falta de ar.
Regularidade
Qualidade de manter um ritmo ou padrão sempre igual.
Borbulha
Pequena bolha de ar que sobe e estoura na água.
Cooperação
Ato de trabalhar junto com outras pessoas para ajudar e completar tarefas.
Presença
Ato de estar perto ou junto de alguém para dar apoio.
Respira
Verbo que indica puxar ar para os pulmões e soltar novamente.

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