Capítulo 1: A mochila a cheirar a novo
Na primeira manhã de aulas, a Leonor acordou antes do despertador. Não foi porque queria correr para a escola como num anúncio de televisão, com o cabelo perfeito e um sorriso gigante. Foi porque tinha um “friozinho” na barriga, daqueles que parecem borboletas a fazer ginástica.
A mãe bateu de leve na porta.
— Bom dia, estrela. Pronta?
— Pronta… mais ou menos — respondeu a Leonor, sentando-se na cama e encarando a mochila nova, encostada à cadeira como se também estivesse a ganhar coragem.
No pequeno-almoço, o pai colocou uma banana no prato dela.
— Combustível para o cérebro.
— E para as borboletas — brincou a Leonor, tentando rir.
A escola era bilingue: tinha cartazes em português e em inglês, setas a dizer “Biblioteca / Library”, “Cantina / Canteen”. A Leonor achou aquilo giro… e um bocadinho assustador. E se ela não percebesse nada?
Quando chegaram, o pátio estava cheio de sons: passos apressados, risos, mochilas a baterem nas costas, e um apito ao longe. A Leonor procurou um canto mais calmo, mas a campainha tocou e levou toda a gente como uma onda.
Na porta da sala, uma professora de óculos redondos sorriu.
— Bom dia! I'm teacher Sofia. Podem chamar-me Sofia.
A Leonor entrou e escolheu um lugar a meio: nem demasiado à frente (para não parecer que sabia tudo), nem demasiado atrás (para não desaparecer). Ao lado, sentou-se uma menina com tranças, que olhava para a sala como se estivesse a contar as cadeiras.
— Olá — disse a Leonor, baixinho.
— Olá! Eu sou a Sara — respondeu a menina, rápido, como se a palavra estivesse a fugir.
Mais à frente, uma rapariga de cabelo encaracolado deixou cair o estojo e os lápis espalharam-se pelo chão com um “clac-clac-clac”.
— Ai… — murmurou ela.
A Leonor levantou-se logo para ajudar. A Sara também.
— Eu apanho estes! — disse a Sara.
— E eu estes — disse a Leonor, apanhando um lápis amarelo que parecia sempre escapar.
A rapariga encaracolada sorriu, aliviada.
— Obrigada. Sou a Inês.
Nesse momento, uma quarta menina entrou a correr, com as bochechas vermelhas.
— Desculpem! O autocarro… fez… “puff”! — explicou, ofegante, como se o autocarro fosse um balão.
A professora Sofia riu com doçura.
— Acontece. Welcome, Marta.
A menina fez um sinal de “olá” para a sala e sentou-se perto delas.
A Leonor olhou para as outras três: Sara, Inês, Marta. Quatro meninas, quatro mochilas, quatro jeitos diferentes de parecer nervosa. E, sem dizerem nada, a Leonor sentiu-se um bocadinho menos sozinha.
Capítulo 2: A roda dos nomes (e das confusões)
A professora Sofia bateu palmas uma vez.
— Hoje vamos começar com uma coisa importante: conhecer os nomes. Vamos fazer uma roda de nomes. A name circle!
As cadeiras foram arrastadas e formaram um círculo. A Leonor engoliu em seco. Dizer o nome parecia fácil… até chegar a vez dela e sentir que a voz podia ficar presa na garganta como uma pastilha elástica.
— Vamos fazer assim — explicou a professora. — A primeira pessoa diz: “Eu sou…” e faz um gesto. A próxima repete e acrescenta o seu nome e gesto. E assim por diante.
A Sara foi a primeira. Endireitou as costas e disse:
— Eu sou a Sara — e fez um gesto de tesoura com os dedos, como se estivesse a cortar o ar.
— Great! — disse a professora.
A Inês veio a seguir:
— Ela é a Sara — repetiu, fazendo a tesoura — e eu sou a Inês — e rodou o pulso como se desenhasse uma espiral.
A Marta tentou imitar os gestos e quase deu um nó nos próprios dedos.
— Ela é a Sara (corta!), ela é a Inês (espira!), e eu sou a Marta — e fez um “tcham!” com as mãos abertas, como apresentadora de um programa.
Algumas crianças riram, mas de forma simpática, como quem diz “gostei”.
A Leonor era a próxima. O coração fez “tum-tum” mais alto.
Ela respirou e repetiu:
— Ela é a Sara — fez a tesoura, devagar. — Ela é a Inês — desenhou a espiral. — Ela é a Marta — abriu as mãos num “tcham!” mais pequeno. — E eu sou a Leonor — e, sem pensar muito, fez um gesto de abrir um livro invisível.
— Lovely! — disse a professora. — Um livro! That's nice.
A roda continuou com mais colegas. Havia gestos de avião, de guitarra, de gato e até um menino que fez um “robô” tão duro que parecia precisar de óleo.
Quando a roda deu a volta completa, a professora Sofia fez uma pergunta:
— Quem consegue dizer os quatro primeiros nomes sem se enganar?
O silêncio caiu como uma folha. A Leonor olhou para a Sara, a Inês e a Marta. Todas tinham cara de “eu sei… mas e se eu falhar?”
A Marta levantou a mão, confiante demais.
— Eu consigo!
— Go ahead — disse a professora.
A Marta começou:
— Sara, Inês, Mart… quer dizer, eu… e… Le… Leão…?
A sala riu, mas a Leonor também riu, porque “Leão” era engraçado e não era maldade.
A Leonor levantou a mão.
— É Leonor — disse, sorrindo. — Mas se quiser, posso rugir depois.
A professora soltou uma gargalhada.
— Deal! Combinado.
A Sara levantou a mão, tímida.
— Eu posso tentar… Sara, Inês, Marta, Leonor.
— Perfeito! — disse a professora Sofia. — E isso chama-se trabalho de memória… e de coragem.
A Leonor sentiu as borboletas a acalmarem, como se estivessem finalmente a encontrar um lugar confortável.
Capítulo 3: O recreio bilingue e o plano solidário
No recreio, o sol batia no chão e fazia as sombras parecerem desenhos no papel. Havia uma parte com árvores, outra com bancos e, ao fundo, uma linha pintada no chão para jogos.
A Leonor saiu com a Sara, a Inês e a Marta quase sem combinarem. Foi como se os pés delas soubessem para onde ir.
— Então… escola bilingue — disse a Inês, mordendo uma maçã. — “Good morning” e depois “bom dia”, dá-me vontade de dizer tudo duas vezes.
— Eu ontem disse “thank you” ao meu gato — confessou a Marta. — Ele ficou a olhar para mim como se eu tivesse virado torradeira.
A Sara riu, tapando a boca.
— O meu irmão diz “bye” até para desligar a luz.
A Leonor olhou para o pátio. Viu um menino sozinho perto do portão, a apertar a mochila como se fosse um colete salva-vidas. Viu também uma menina com cara de perdida, a olhar para o chão como se procurasse um mapa.
— A roda dos nomes ajudou… mas ainda me confundo — disse a Leonor. — E se amanhã a professora pedir outra vez?
— A gente treina — decidiu a Inês, com aquele ar de quem organiza tudo na cabeça. — Podemos fazer uma mini-roda só nossa.
— Um clube secreto! — disse a Marta, já entusiasmada.
— Mas sem segredo mau — corrigiu a Sara depressa. — Segredo bom. Tipo… “segredo de ajudar”.
Elas fizeram um círculo pequenino perto de um banco.
— Eu sou a Sara — tesoura.
— Ela é a Sara, eu sou a Inês — espiral.
— Ela é a Sara, ela é a Inês, eu sou a Marta — tcham!
— Ela é a Sara, ela é a Inês, ela é a Marta, eu sou a Leonor — livro.
A Leonor sentiu orgulho: agora parecia mais fácil. E então teve uma ideia.
— Podemos incluir outras pessoas. Quem estiver sozinho.
A Sara assentiu.
— Solidariedade — disse, com uma palavra que ela gostava de usar como se fosse uma chave.
Chamaram primeiro a menina perdida. Ela aproximou-se devagar.
— Queres brincar? — perguntou a Inês.
— Eu… posso — respondeu a menina. — Eu sou a Beatriz.
— Welcome, Beatriz! — disse a Marta, com um exagero simpático que fez a Beatriz sorrir.
Depois chamaram o menino do portão.
— Queres fazer a roda dos nomes connosco? — perguntou a Leonor, mostrando o gesto do livro.
O menino hesitou, mas acabou por dar um passo.
— Eu sou o Tomás — disse, baixinho.
— Nice to meet you, Tomás — disse a professora Sofia ao passar por perto, e piscou o olho como quem diz “boa iniciativa”.
A mini-roda cresceu. Não foi perfeita: alguém trocou gestos, outro esqueceu um nome e inventou “o do avião”. Mas ninguém gozou. Quando alguém falhava, a Sara dizia:
— Sem problema, repetimos.
E a Inês acrescentava:
— A memória aprende com calma.
E a Marta fazia uma cara séria demais e dizia:
— A memória está em modo “carregar”, ok?
E todos riam.
Quando a campainha tocou, o Tomás já não apertava a mochila como colete salva-vidas. A Beatriz já não olhava para o chão. E a Leonor sentiu uma coisa boa: ajudar os outros tinha ajudado também as borboletas dela.
Capítulo 4: A segunda manhã e o teste-surpresa
No dia seguinte, a Leonor acordou com menos frio na barriga. Ainda havia borboletas, sim, mas agora pareciam borboletas a passear, não a fazer ginástica.
Na sala, a professora Sofia escreveu no quadro:
“Welcome back! / Bem-vindos!”
E por baixo desenhou um círculo.
— Today… vamos ver a roda de nomes outra vez — anunciou ela. — Mas desta vez, vocês é que vão conduzir.
A Leonor olhou para a Sara, a Inês e a Marta. A Marta abriu os olhos como se tivesse acabado de ouvir “teste de matemática”…
— Ai meu Deus — sussurrou ela. — O meu cérebro ainda está a pôr as mochilas no lugar.
A Leonor riu.
— A gente ajuda.
A professora escolheu quatro alunas para começar. E claro, como se o destino adorasse piadas, chamou:
— Leonor, Sara, Inês e Marta, podem vir aqui à frente?
A Marta levou a mão à testa, dramática.
— Isto é um filme — murmurou.
Elas ficaram em pé, viradas para a turma. A Leonor sentiu o calor nas bochechas, mas lembrou-se do recreio: repetimos, sem gozar.
— Vamos fazer juntas — disse a Leonor, baixinho, para as amigas. — E se alguém esquecer, a outra sopra.
— Sopra em português ou em inglês? — brincou a Inês.
— Em “língua de amiga” — respondeu a Sara.
A Leonor começou:
— Eu sou a Leonor — livro.
A Sara seguiu:
— Ela é a Leonor — livro — eu sou a Sara — tesoura.
A Inês:
— Ela é a Leonor, ela é a Sara, eu sou a Inês — espiral.
A Marta respirou fundo, fez pose de apresentadora e disse:
— Ela é a Leonor, ela é a Sara, ela é a Inês, eu sou a Marta — tcham!
E, para surpresa de todos, correu bem.
A turma bateu palmas. A Marta fez uma vénia exagerada e quase perdeu o equilíbrio. A Leonor segurou-lhe o braço a tempo.
— Obrigada — disse a Marta, baixinho. — Quase virei cadeirinha de circo.
— Ainda bem que não — sussurrou a Leonor. — O circo fica para a aula de Educação Física.
Depois, a professora propôs um desafio:
— Agora, em pares, vocês vão apresentar o nome da colega: “This is…” e “Esta é…”. Assim praticamos as duas línguas.
A Leonor ficou com a Beatriz, que parecia mais tranquila do que ontem.
— Esta é a Beatriz — disse a Leonor.
— This is Leonor — respondeu a Beatriz, com um sorriso pequenino, mas firme.
A Sara ficou com o Tomás para o ajudar a falar mais alto. A Inês com outra colega, e a Marta, claro, escolheu fazer voz de locutora:
— This is… Marta! — e depois, em português: — Esta sou eu! — o que não fazia muito sentido, mas fez toda a gente rir.
No fim da manhã, a professora Sofia falou com seriedade suave:
— Vocês fizeram uma coisa importante: ajudaram-se. Learning is easier together. Aprender é mais fácil juntos.
A Leonor guardou essa frase como se fosse um marcador de livro, bem no meio do coração.
Capítulo 5: O balão e o final arrumado
À tarde, houve uma atividade na sala: cada grupo podia escolher um objeto para representar “o que quero levar comigo este ano”. Havia quem desenhasse lápis, quem escolhesse uma estrela, quem colasse um recorte de bola de futebol.
A professora Sofia trouxe uma caixa com balões coloridos.
— Cada grupo pode usar um balão, mas com uma regra: no fim, o balão tem de ficar arrumado. Combinado?
— Combinado! — respondeu a turma.
A Leonor, a Sara, a Inês e a Marta escolheram um balão azul. Não para atirar ao ar sem pensar, mas para fazer dele um “balão da roda de nomes”. A ideia foi da Inês:
— Escrevemos os nossos nomes e um gesto, assim lembramos.
Com caneta própria, escreveram: “Leonor — livro”, “Sara — tesoura”, “Inês — espiral”, “Marta — tcham!”. Depois decidiram acrescentar os nomes do Tomás e da Beatriz também, porque a roda tinha crescido no recreio.
— Solidariedade no balão — disse a Sara, satisfeita.
A Marta levantou o balão e disse:
— Este balão é bilingue?
A Leonor piscou-lhe o olho.
— Se ele flutuar, é “fly”. Se cair, é “ai”.
Elas riram e, por um momento, o balão escapou das mãos da Marta e subiu até perto do teto, a girar devagar como um planeta pequeno. Todas prenderam a respiração.
— O balão vai morar aqui em cima para sempre! — sussurrou a Marta, horrorizada.
A Leonor olhou à volta. Havia um cabo de um mapa enrolável e uma régua comprida do armário da professora. A Inês teve a ideia:
— Se juntarmos a régua e o mapa, dá para alcançar.
— Mas com cuidado — disse a Sara. — Sem derrubar nada.
Trabalharam juntas: a Leonor segurou a régua, a Inês guiou, a Sara estabilizou a cadeira (com a professora a supervisionar), e a Marta, na ponta dos pés, conseguiu puxar o balão de volta com a ponta da régua, devagarinho, como se fosse pescar uma nuvem.
Quando o balão voltou às mãos delas, a sala aplaudiu.
— Teamwork! — disse a professora Sofia. — Excelente.
No fim do dia, antes de saírem, a professora lembrou:
— E a regra do balão?
A Leonor olhou para as amigas. Elas sabiam o que fazer.
Com cuidado, deixaram o balão azul dentro da caixa, bem dobrado, com os nomes virados para cima, para ser usado noutra atividade.
A Leonor fechou a tampa e sentiu uma calma boa, como quando se arruma o quarto e de repente dá para respirar melhor.
Lá fora, no pátio, a luz do fim da tarde parecia dourada. A Leonor caminhou com a Sara, a Inês e a Marta até ao portão.
— Amanhã, roda dos nomes no recreio? — perguntou a Beatriz, aproximando-se.
— Sim! — respondeu a Leonor. — E desta vez, com mais gente.
A Marta levantou a mão como se fosse juramento.
— Prometo não chamar “Leão” à Leonor… a não ser que ela queira rugir.
A Leonor fez uma careta de leão muito, muito fraquinha.
— Rrr… pequenino — disse, e todas riram.
A Leonor entrou no carro, acenou para as amigas e olhou para a escola a ficar para trás. As borboletas estavam quietas, como se tivessem aprendido o caminho. E, na cabeça dela, a roda de nomes girava certinha, como um jogo que agora era também uma forma de cuidar uns dos outros.