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História sobre o inverno 11 a 12 anos Leitura 11 min.

A pressa do Tomás e o mapa do inverno

Tomás e os amigos enfrentam um inverno de geada enquanto organizam medições e constroem um abrigo no jardim, aprendendo que planejar em conjunto pode aquecer mais do que o chá.

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Três rapazes de 12 anos em um pequeno jardim de casa no crepúsculo de inverno: ao centro um rapaz de cabelos castanhos curtos, cachecol vermelho e casaco azul-marinho, agachado junto ao solo gelado segurando um cronômetro e olhando a tela; à esquerda um rapaz de cabelos pretos desgrenhados, gorro verde e casaco cinza, sorrindo e abraçando um caderno plástico junto a um pequeno abrigo de madeira recém-montado; à direita um rapaz loiro com protetor de orelhas e blusão castanho, ajoelhado junto a um canteiro com geada, segurando uma fita métrica e rascunhando um plano. Ambiente estudioso e cooperativo: chão duro com placas de geada brilhante, respiração visível, gotas de gelo nas folhas, luvas e gorros alinhados junto ao abrigo, banco e tábuas, janela iluminada mostrando uma cozinha quente ao fundo, poste com luz suave projetando sombras longas; estilo mangá com traços nítidos, olhos expressivos e paleta de cores frias com acentos quentes (luz da janela, cachecol vermelho). reportar um problema com esta imagem

1) A pressa do Tomás

Tomás olhava para o relógio da cozinha como se ele pudesse andar mais depressa só por pena.

— Vá lá… falta muito? — resmungou, batendo o pé no chão.

A mãe pousou uma caneca de leite morno em cima da mesa.

— Falta o tempo de vestir o casaco, o gorro e as luvas. E falta o tempo de respirar — disse ela, com um sorriso calmo.

Do lado de fora, o inverno tinha pintado o bairro com cores frias. O céu estava baixo e pálido. As árvores pareciam desenhadas a lápis. E o dia já se encolhia, como se também tivesse frio.

Tomás tinha 12 anos e uma pressa que não cabia no corpo. Queria fazer tudo já: sair, brincar, começar o projeto da escola, acabar o trabalho de grupo… e, se fosse possível, chegar logo ao fim do inverno para ver o sol voltar a ficar mais tempo.

O telemóvel vibrou: mensagem do Diogo.

“Já estou à tua porta. O Rafa vem a caminho.”

Tomás enfiou o casaco à pressa, mas a mãe travou-o com um gesto leve.

— Leva o cachecol. No inverno, quem se organiza, aquece-se melhor.

Tomás suspirou como quem aceita uma regra chata do mundo. Puxou o cachecol e saiu.

2) O jardim duro e a ideia do Rafa

Diogo esperava junto ao portão, com as mãos nos bolsos e o nariz vermelho.

— Estás com cara de quem quer correr uma maratona — gozou ele.

— Estou com cara de quem quer que as coisas aconteçam — respondeu Tomás.

Rafa chegou a correr, a mochila às costas, com o gorro torto e um sorriso de quem traz novidades.

— Malta! Vamos fazer uma coisa fixe. Um “mapa de inverno” para o trabalho de Ciências. Aqui no teu jardim dá! — apontou para o quintal de Tomás.

O jardim estava diferente. A relva tinha manchas brancas de geada. A terra, escura e dura, parecia pedra. Quando Tomás encostou a bota ao chão, ouviu-se um som seco, como um “toc”.

— A terra está congelada! — disse ele, meio espantado, meio divertido.

— É isso! — Rafa ajoelhou-se e tentou espetar um pau no chão. Não entrou. — Vês? Isto é perfeito para observar. E podemos medir a temperatura e ver onde a geada fica mais tempo.

Diogo puxou um caderno.

— Trouxe isto para apontarmos tudo. A professora disse que o trabalho de grupo tem de ter organização. — Ele disse “organização” como se fosse um superpoder.

Tomás revirou os olhos.

— Organização dá trabalho.

— Desorganização dá mais — respondeu Diogo, rápido.

Rafa riu.

— Está bem, chefes. Primeiro: lista de tarefas. Depois: aventura no gelo.

Tomás queria saltar já para a “aventura”. Mas, ao ver os dois amigos a preparar as coisas, sentiu uma vontade pequena e inesperada: o desejo de fazer aquilo bem, juntos.

3) A missão das medições

Fizeram um plano simples, ali mesmo, com o vapor das respirações a sair em nuvens pequenas.

— Eu meço a temperatura perto do muro — disse Diogo.

— Eu desenho um mapa do jardim — disse Rafa, já a rabiscar quadrados e setas.

Tomás cruzou os braços.

— E eu…?

— Tu és o responsável pelos tempos — disse Diogo, a estender-lhe o telemóvel com o cronómetro. — Dez minutos em cada ponto.

Tomás ia reclamar, mas o aparelho na mão deu-lhe uma sensação de importância. Ele gostava de ser rápido. Talvez pudesse usar isso a favor do grupo.

Começaram junto ao canteiro. A geada brilhava como açúcar em cima das folhas secas. Tomás agachou-se e tocou na terra com a luva. Era fria, firme, quase lisa.

— Parece que o chão está a prender a respiração — murmurou Rafa.

— E nós também — disse Diogo, soprando para aquecer os dedos.

Tomás carregou no cronómetro.

— Começa agora. Dez minutos.

Nos primeiros dois minutos, Tomás quis apressar tudo.

— Já dá para ir, não dá?

— Calma — disse Diogo. — Se não esperarmos o tempo certo, a medição não vale nada.

Tomás olhou para o jardim. O silêncio do inverno tinha um som próprio: o raspar das folhas, um cão ao longe, o vento a mexer num ramo. Nada tinha pressa.

Ele tentou imitar o jardim. Inspirou devagar. Soltou o ar pela boca. Outra vez.

Quando o cronómetro apitou, Tomás sentiu uma alegria estranha: tinha conseguido esperar.

— Próximo ponto — anunciou, como se fosse um treinador.

4) Um plano para aquecer e uma gargalhada

Depois de várias medições, os dedos começaram a reclamar.

— Já não sinto o mindinho — queixou-se Rafa.

— O meu nariz está a transformar-se num tomate — disse Diogo.

Tomás, sempre inquieto, sugeriu:

— Entramos, fazemos uma pausa de três minutos e voltamos. Três. Não quatro.

Diogo levantou uma sobrancelha.

— Três minutos? Isso é uma “pausa com cronómetro”.

— É uma pausa eficiente — respondeu Tomás, com ar sério.

Rafa soltou uma gargalhada.

— Tomás, tu és mesmo uma panela de pressão.

Entraram na cozinha. O cheiro a sopa quente abraçou-os como um cobertor.

A mãe de Tomás apareceu com um olhar divertido.

— Então, exploradores do gelo?

— Cientistas — corrigiu Diogo, todo importante.

— Cientistas congelados — acrescentou Rafa.

A mãe colocou na mesa três canecas de chá com mel.

— Para o trabalho de grupo, precisam de energia… e de ordem. Deixem as luvas ali, os gorros ali, e as mochilas no mesmo sítio. Senão depois passam metade do tempo à procura de coisas.

Tomás ia dizer “não faz diferença”, mas ficou a observar. Quando puseram tudo em linha — luvas juntas, fitas do cachecol dobradas, lápis numa caixa — a cozinha pareceu mais calma. Até o seu peito, que costumava estar sempre a correr, abrandou um bocadinho.

— Três minutos — avisou ele, mesmo assim, e iniciou o cronómetro.

— Ele não desliga — murmurou Rafa, e os três riram, baixinho, para não estragar o aconchego.

5) O abrigo no jardim

De volta ao quintal, o céu estava a escurecer ainda mais cedo. O inverno fazia isso: puxava as cortinas antes da hora.

— Precisamos de um sítio para guardar as coisas lá fora — disse Diogo. — Senão amanhã a geada molha os papéis.

Rafa apontou para o canto do jardim, onde havia tábuas velhas e um banco de madeira.

— Podemos montar um abrigo simples. Nada de castelos. Só um teto inclinado.

Tomás animou-se.

— Eu trago fita adesiva e cordel!

— Vês? — disse Diogo. — A tua pressa pode ser útil.

Trabalharam em equipa: Rafa segurava as tábuas, Diogo media com uma fita e anotava, Tomás corria para buscar coisas e voltava sem se perder… porque, dessa vez, tinha colocado tudo no mesmo sítio.

O vento levantou um pouco de geada, como pó brilhante. Tomás sentiu o frio entrar pelas mangas, mas também sentiu outra coisa: o calor de estar acompanhado, de ter uma tarefa clara.

Quando o abrigo ficou pronto, pequeno e torto mas resistente, Rafa bateu-lhe com a mão.

— Está sólido.

— Como a terra — disse Tomás, e chutou o chão, ouvindo o “toc”.

Diogo colocou lá dentro o caderno, bem protegido num saco.

— Amanhã continuamos. E vamos ter um trabalho de grupo de jeito.

Tomás olhou para o jardim e imaginou tudo pronto: o mapa, as temperaturas, o texto final, as fotos. Pela primeira vez, a ideia de “passo a passo” não o irritou. Pareceu-lhe uma ponte.

6) O caderno, o cobertor e o sono a chegar

Quando os amigos foram embora, Tomás entrou em casa com as bochechas frias e o coração mais leve.

No quarto, sentou-se na secretária. Lá fora, o inverno deixava o vidro da janela embaciado. O candeeiro fazia um círculo amarelo e tranquilo sobre o papel.

Ele abriu o caderno do trabalho e escreveu no topo: “Plano — Amanhã”.

Fez uma lista, simples:

1) Fotografar o jardim de manhã.

2) Medir a temperatura nos mesmos pontos.

3) Comparar com hoje.

4) Fazer o texto em conjunto.

5) Rever e organizar tudo.

Olhou para a lista. Tão pequena. Tão clara.

O corpo começou a lembrar-lhe que o dia tinha sido comprido. As pernas pesavam. Os olhos piscavam devagar, como se cada pestana fosse um cobertor a cair.

A mãe bateu à porta e entrou.

— Como correu?

— Bem — disse Tomás, e bocejou. — Fizemos um abrigo no jardim. E… eu fiz um plano.

Ela sentou-se na beira da cama.

— Um plano ajuda a cabeça a descansar.

Tomás puxou o cobertor até ao queixo. Sentia ainda o frio do jardim nas mãos, mas agora era um frio distante, como uma lembrança arrumada numa gaveta.

— Sabes — murmurou ele — eu achei que o inverno era só… chato e gelado. Mas tem coisas boas. O silêncio. O chá. E… trabalhar com eles.

— O inverno ensina a abrandar — disse a mãe. — E a cuidar.

Tomás fechou os olhos por um instante e viu o jardim: a terra dura, a geada a brilhar, os três a rir com o nariz vermelho.

— Amanhã faço tudo direitinho — disse ele, já com a voz a ficar mais baixa.

— Amanhã — respondeu a mãe, e apagou a luz principal, deixando só o brilho suave do corredor.

Tomás respirou devagar, como tinha feito no jardim. Uma inspiração. Uma expiração. O corpo afundou no colchão.

No escuro, percebeu uma coisa simples e boa: quando ele e os amigos se organizavam, o inverno parecia menos frio. E, com a lista pronta e as coisas no lugar, a pressa dentro dele finalmente encontrou um sítio onde descansar.

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Geada
Camada fina de gelo que aparece na terra e nas plantas quando faz muito frio.
Canteiro
Pequeno espaço do jardim onde se plantam flores ou hortaliças.
Cronómetro
Aparelho ou função que mede o tempo com precisão, como um temporizador.
Vapor
Pequenas nuvens de água que saem quando algo quente encontra ar frio.
Respirações
Ações de inspirar e expirar o ar para dentro e fora dos pulmões.
Abrigo
Lugar ou construção simples que protege da chuva, do vento ou do frio.
Tábuas
Placas de madeira retas, usadas para construir coisas como um abrigo.
Cordel
Fio grosso e resistente, usado para amarrar ou prender objetos.
Embaciado
Quando o vidro fica coberto por uma camada de vapor ou névoa.
Secretária
Móvel com gavetas e superfície para escrever ou estudar.
Candeeiro
Objeto que dá luz, para ler ou iluminar um quarto.
Sólido
Que é firme e resistente, que não se quebra ou desmancha fácil.

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