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História de Veterinário 11 a 12 anos Leitura 17 min.

A mala da veterinária Marta e os animais que pediam socorro

A veterinária Marta percorre uma quinta ajudando vacas, cabras, um pintainho e um ouriço ferido, ao mesmo tempo que ensina o rapaz Tomás sobre cuidado, paciência e respeito pela natureza.

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Veterinária de ~35 anos, cabelos castanhos apanhados em coque, bata bege suja e expressão calma e concentrada, agachada junto a uma grande vaca marrom chamada Mimosa enquanto ausculta seu flanco com um estetoscópio e segura uma pequena nécessaire de couro; ao lado esquerdo, o menino Tomás de 11 anos, cabelos despenteados e olhar curioso, observa atento com as mãos nos joelhos; ao fundo à direita, o agricultor Álvaro, ~60 anos, pele enrugada, boné gasto, jardineira e botas enlameadas, sorri aliviado segurando um balde junto à porta do celeiro; perto do box, a cabra Branquinha, branca e travessa com uma pata levemente avermelhada, busca atenção; interior do celeiro com luz dourada da manhã filtrando pelas fendas de madeira, poeira visível, fardos de feno, ferramentas e piso de terra e palha; cena calorosa e realista de atendimento veterinário, cuidado rural e proximidade entre profissionais, família e animais. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A mala de couro e o cheiro a feno

A doutora Marta estacionou a carrinha ao lado do celeiro, e o motor calou-se como se também estivesse cansado. O ar da manhã cheirava a feno seco, terra húmida e leite morno. Ela respirou fundo, ajustou o casaco e pegou na mala de couro castanho, já com marcas de muitas viagens.

— Bom dia, doutora! — chamou o senhor Álvaro, o dono da quinta, acenando com uma mão e segurando um balde com a outra. — A Mimosa não quer comer.

Marta caminhou até ao estábulo, onde uma vaca de olhos grandes e brilhantes mastigava devagar, como se cada movimento fosse um esforço.

— Olá, Mimosa — disse Marta, com voz macia. — Vamos ver o que se passa contigo.

Ela ajoelhou-se ao lado da vaca sem pressa, como quem pede licença. Primeiro, observou: o nariz, os olhos, a forma como a Mimosa respirava. Depois, pôs o estetoscópio no peito largo do animal.

O senhor Álvaro, curioso, inclinou-se.

— E então?

— Ainda não “então” — respondeu Marta, sorrindo. — Primeiro escutamos. O coração e os pulmões contam histórias.

Ela apalpou o flanco da vaca, com dedos firmes e cuidadosos.

— Vês? — explicou, virando-se para o Tomás, um rapaz da aldeia que passava por ali e ficara a espreitar, fascinado. — Os animais não dizem “dói aqui”. Por isso, a veterinária observa, escuta, toca e faz perguntas. É como ser detetive, só que com mais lama nas botas.

Tomás riu.

— E a Mimosa está a mentir?

— Não. Ela só está a falar numa língua diferente. — Marta olhou para a vaca. — Hmm… parece-me uma indisposição. Talvez tenha comido demasiado rápido ou algo que não devia.

Marta abriu a mala: termómetro, luvas, frascos com rótulos, uma seringa, um rolo de ligaduras, um pequeno bloco de notas. Parecia um kit de aventura.

— Mas… isso dói? — perguntou Tomás, apontando para a seringa, com os olhos arregalados.

— Às vezes pica um bocadinho, como quando te beliscas sem querer. Mas eu faço com calma e só quando é necessário. A nossa missão é aliviar.

Ela deu à Mimosa um medicamento e recomendou ao senhor Álvaro água limpa e descanso.

— E se ela não melhorar?

— Volto. O trabalho de veterinária é acompanhar. Às vezes, é preciso repetir exames, ajustar cuidados, e ter paciência. Cura também é tempo.

Quando saíam do estábulo, Marta ouviu um som diferente: um “piu” fino e apressado, vindo de perto do portão da quinta.

— Ouviste? — perguntou Tomás.

— Ouvi. — Marta endireitou-se. — E esse som costuma significar “socorro”.

Capítulo 2: O pintainho com pressa de mundo

Atrás de um monte de caixas velhas, encontraram um pintainho amarelo, minúsculo, a tremer como uma folha. Tinha uma penugem ainda húmida e os olhos semicerrados. Ao lado, penas espalhadas e uma casca partida.

Tomás agachou-se.

— Caiu do ninho?

Marta puxou as luvas e aproximou as mãos devagar.

— Pode ter sido empurrado, ou assustou-se com algum barulho. Quando são tão pequenos, o frio é um perigo enorme.

Ela pegou no pintainho com delicadeza, como se segurasse um segredo quente. O bichinho soltou um “piu” indignado e depois encolheu-se, confiando.

— Ele está sozinho… — murmurou Tomás. — Não podemos deixá-lo assim.

— Não vamos. — Marta colocou-o dentro do casaco, junto ao calor do corpo. — Mas também não vamos fazer “bem” de qualquer maneira. Ajudar exige saber.

Tomás franziu a testa.

— Como assim?

Marta começou a caminhar, e Tomás acompanhou-a, quase a tropeçar nos próprios pensamentos.

— Há animais que são domésticos, como as galinhas desta quinta. Esses dependem das pessoas. Mas há animais selvagens que pertencem à natureza. Um veterinário de campo pode ser chamado para os dois, mas as decisões mudam.

— E um pintainho é doméstico, certo?

— Aqui, sim. — Marta sorriu. — Vamos tentar encontrar a mãe ou o galinheiro. O ideal é devolvê-lo ao lugar certo. O melhor cuidado, muitas vezes, é o retorno.

No galinheiro, o cacarejar parecia uma conversa agitada. Marta aproximou-se do ninho mais provável, observou as galinhas, e escolheu uma que parecia inquieta, andando de um lado para o outro.

— Esta está à procura — disse ela. — Vês como faz “cloc-cloc” e olha para o chão?

Com cuidado, Marta colocou o pintainho no ninho. A galinha olhou, bicou de leve, como quem confirma: “és meu”, e cobriu-o com as penas.

Tomás soltou o ar que estava a prender.

— Ufa.

— Ufa mesmo. — Marta fechou a portinhola. — Hoje, o final foi simples.

Eles voltaram ao pátio, e Marta notou algo no chão: pegadas pequenas, como mãos, perto das caixas velhas.

— Isto não é de galinha — disse ela.

— De quê?

— De… alguém com dedos — respondeu Marta, com um brilho curioso nos olhos. — Talvez um visitante noturno.

Tomás engoliu em seco.

— Tipo… ladrão?

Marta levantou uma sobrancelha.

— Às vezes o “ladrão” só quer sobreviver. E se for quem eu estou a pensar… talvez precise de ajuda para voltar para onde pertence.

Capítulo 3: A cabra, o casco e a lição da paciência

Antes de seguirem as pegadas, o senhor Álvaro chamou Marta às pressas.

— Doutora! A Branquinha está a coxear outra vez!

A Branquinha era uma cabra esperta, famosa por roubar pão se alguém piscasse os olhos. Agora, porém, estava parada, com uma perna levantada, como se o chão a ofendesse.

Marta aproximou-se.

— Branquinha, minha artista… hoje não estás com vontade de fazer acrobacias?

A cabra respondeu com um “méé” que soou quase como “não”.

Marta sentou-se num banquinho baixo e pediu ao senhor Álvaro:

— Segure-a com firmeza, mas sem apertar. — Olhou para Tomás. — A palavra-chave é “calma”. Um animal sente quando estamos tensos.

Ela limpou o casco com uma escovinha, removendo lama e pedrinhas. O cheiro era forte, mas Marta nem fez careta. Observou a parte de baixo do casco com atenção.

— Aqui está — disse, apontando. — Uma pedrinha encravada. Parece pequena, mas para ela é como ter uma pedra no teu sapato… o dia inteiro.

Tomás fez uma careta de solidariedade.

— Ai.

Marta usou uma pinça para retirar a pedrinha, desinfetou a área e colocou uma ligadura.

— E pronto? — perguntou Tomás.

— Quase. — Marta levantou um dedo. — Agora é importante vigiar. Se houver infeção, pode ficar pior. E às vezes um casco precisa de ser aparado. Sabias que, em animais de quinta, os cascos também “crescem” e precisam de manutenção?

Tomás abanou a cabeça.

— Pensei que só cortavam as unhas às pessoas.

— Cortamos unhas, aparámos cascos, tratamos feridas, fazemos vacinas, ajudamos nos partos… — Marta fechou a mala. — E também ensinamos. Porque o melhor tratamento é a prevenção.

A Branquinha experimentou pôr a pata no chão. Ainda com cautela, mas sem a mesma dor. Depois tentou dar uma cabeçada amigável no joelho de Marta.

— Está a agradecer — disse Tomás.

— Está a pedir pão — corrigiu Marta, rindo.

Quando saíram, Marta voltou às pegadas.

— Vamos ver o nosso visitante? — perguntou ela.

Tomás hesitou, mas a curiosidade ganhou.

— Vamos.

Seguiram o rasto até ao limite da quinta, onde a erva alta se juntava a um pequeno bosque. Ali, entre arbustos, ouviram um farfalhar. E um som baixo, como um chorinho contido.

Marta fez um gesto para Tomás ficar atrás dela.

— Devagar — sussurrou.

Capítulo 4: O ouriço-cacheiro e o plano de regresso

Entre as folhas, estava um ouriço-cacheiro, enrolado a meio, como uma bolinha de espinhos indecisa. Tinha um arranhão na pata e respirava rápido. Ao lado, uma armadilha velha de arame, esquecida sabe-se lá por quem, meio enterrada.

Tomás arregalou os olhos.

— Foi isto que o apanhou?

— Provavelmente. — Marta ajoelhou-se, sem tocar ainda. — O ouriço é selvagem. Não é para ter em casa, mesmo que pareça fofinho por baixo dos espinhos. Ele precisa da natureza para ser… ouriço.

— Mas está ferido!

— E por isso vamos ajudar. — Marta pegou num pano grosso e numa pequena caixa de transporte que tinha na carrinha. — Quando lidamos com animais selvagens, o objetivo é tratar e reduzir o stress. Eles assustam-se com cheiros humanos, barulhos, luzes fortes.

Ela cobriu o ouriço com o pano, com movimentos suaves, e colocou-o na caixa. O ouriço fez um som minúsculo, como um “puff” indignado.

— Desculpa — murmurou Marta. — É por pouco tempo.

Tomás caminhava ao lado, a olhar para a caixa como se transportassem um tesouro.

— E agora? Leva-o para a tua clínica?

— Primeiro, vou limpar e avaliar a ferida. Depois, vou ligar para o centro de recuperação de fauna. Eles têm espaço, comida adequada e locais de reabilitação. Às vezes, um veterinário de campo trabalha em rede. Ninguém faz tudo sozinho.

No consultório simples de Marta — uma sala clara ao lado da sua casa, com prateleiras de frascos e uma mesa de exame — ela pesou o ouriço, observou a pata e limpou o arranhão.

— Não parece profundo — disse. — Boa notícia.

Tomás soltou um suspiro.

— Ele vai ficar bem?

— Com cuidados, sim. Mas há outra coisa importante: quando um animal selvagem está em contacto com pessoas, pode habituar-se. E isso, na natureza, é perigoso. Pode aproximar-se de estradas, cães, ou de gente que não entende.

Tomás ficou calado por um instante.

— Então ajudar é… não prender.

— Exatamente. — Marta colocou uma pomada e fez um curativo pequeno. — A ideia é que ele volte a procurar insetos, esconder-se debaixo de folhas, e andar à noite como se ninguém no mundo tivesse uma consulta marcada.

Tomás riu baixinho.

— Ele parece zangado.

— É ótimo sinal. — Marta piscou o olho. — Um animal selvagem saudável não quer ser nosso amigo. Quer ser livre.

Mais tarde, com o ouriço mais estável, Marta e Tomás seguiram de carrinha até ao centro de recuperação, onde uma bióloga os recebeu.

— Boa captura… digo, bom resgate — brincou a bióloga, ao ver a caixa.

Marta entregou uma ficha com o peso, o tipo de ferida e os cuidados já feitos.

— Aqui está tudo anotado. Ele apanhou-se numa armadilha velha.

— Vamos tratar e, quando estiver pronto, soltamo-lo numa zona segura — garantiu a bióloga.

Tomás olhou para a caixa, com um aperto no peito.

— Posso… posso vê-lo ser solto?

A bióloga sorriu.

— Se voltares um dia destes, talvez sim. Depende de como ele evoluir.

Marta pousou a mão no ombro de Tomás.

— Às vezes, o final feliz tem de esperar um bocadinho.

Capítulo 5: Uma noite de perguntas e um mapa de estrelas

No regresso, o céu começou a escurecer, e as primeiras estrelas apareceram, como pontos de farinha espalhados numa mesa gigante.

Tomás estava mais quieto do que o habitual.

— No que pensas? — perguntou Marta, conduzindo devagar pela estrada estreita.

— Penso que o teu trabalho é… estranho. Num minuto estás a cuidar de uma vaca, no outro de um ouriço. E não é só dar medicamentos.

— Não é mesmo. — Marta assentiu. — É compreender vidas diferentes. E também pessoas. Porque quase sempre há alguém preocupado do outro lado.

Tomás olhou pela janela.

— E como sabes o que fazer?

— Estudo, prática, e humildade — respondeu Marta. — Há exames, livros, cursos… mas também há aprender a observar. Uma vaca que para de ruminar, uma cabra que muda o jeito de andar, um porco que se isola… pequenos sinais.

— E se erras?

Marta ficou séria, mas a voz manteve-se doce.

— Então voltamos a tentar, pedimos ajuda, ajustamos o plano. A medicina não é magia. É cuidado. E o cuidado inclui admitir quando precisamos de mais informação.

Chegaram à quinta para deixar Tomás, e o senhor Álvaro esperava com um sorriso.

— A Mimosa já está a comer! — anunciou ele. — E a Branquinha… bom… tentou roubar uma maçã. Acho que está curada.

Marta riu.

— Excelente diagnóstico: “roubo de maçã” é sinal de energia.

Tomás desceu da carrinha, mas antes de fechar a porta, perguntou:

— Doutora, por que é que escolheste ser veterinária de animais de quinta? Podias trabalhar numa clínica chique, na cidade.

Marta olhou para a estrada de terra, para as luzes quentes do celeiro, para o som distante de animais a mexer.

— Porque aqui faço falta. E porque gosto deste tipo de coragem: a coragem tranquila de cuidar todos os dias. — Ela fez uma pausa. — E porque estes animais alimentam famílias. Cuidar deles é cuidar das pessoas também.

Tomás sorriu, como se guardasse a resposta numa gaveta especial.

— Boa noite, doutora.

— Boa noite, Tomás. Dorme bem. E lembra-te: ajudar um animal é também respeitar o mundo dele.

Quando Marta voltou para casa, lavou as mãos com cuidado, como fazia sempre, e deixou a mala pronta para o dia seguinte. Do lado de fora, a noite estava calma, e o silêncio parecia um cobertor.

Capítulo 6: A rua que acorda com preocupações e alívios

De manhã, antes mesmo do sol subir direito, Marta abriu a janela e viu a rua estreita da aldeia: portas de madeira, vasos com flores, bicicletas encostadas a muros, e um gato a espreguiçar-se como dono de tudo.

A rua tinha um jeito especial. Era como um corredor por onde passavam histórias: gente ansiosa, animais doentes, crianças curiosas, e também muitos finais felizes construídos aos bocadinhos.

Marta tomou um café rápido, verificou a lista do dia e colocou a mala de couro no banco da frente da carrinha. A mala parecia mais pesada, não por causa dos instrumentos, mas por causa das responsabilidades — e mesmo assim, Marta carregava-a com leveza.

Ao longe, viu já uma figura a aproximar-se: dona Emília, com um lenço na cabeça e uma expressão aflita, segurando uma caixa.

Marta sorriu com ternura.

— Bom dia, dona Emília. Vamos ver quem precisa de ajuda hoje?

A rua, ainda meio sonolenta, preparava-se para receber mais passos apressados e suspiros de alívio. E Marta, veterinária modesta de animais de quinta, estava pronta outra vez — com inteligência do coração, mãos cuidadosas e amor pelos animais, como quem acende uma luz pequena e constante, capaz de tranquilizar o mundo.

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Celeiro
Lugar na quinta onde se guardam palha, feno e ferramentas agrícolas.
Feno
Palha seca cortada usada para alimentar e abrigar animais da quinta.
Carrinha
Veículo pequeno, usado para transportar pessoas, animais e materiais.
Veterinária
Profissional que cuida da saúde dos animais e os trata quando adoecem.
Estetoscópio
Instrumento usado para ouvir o coração e os pulmões dos animais.
Flanco
Parte lateral do corpo de um animal, entre as costelas e as ancas.
Termómetro
Instrumento que mede a temperatura do corpo de um animal.
Ligaduras
Fitas ou ataduras usadas para proteger e segurar uma ferida.
Reabilitação
Tratamento que ajuda um animal ferido a recuperar e voltar à vida normal.
Fauna
Conjunto de animais que vivem num lugar, como a floresta ou a quinta.
Penugem
Pelagem muito macia e curta de pintos recém-nascidos.
Pomada
Creme medicinal aplicado na pele para ajudar a curar feridas.

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