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Conto assustador 9 a 10 anos Leitura 13 min.

A lanterna que ouvia os murmúrios

Lia recebe uma lanterna especial e, ao aprender a ouvir os sussurros e medos da sua vila, enfrenta sombras que se alimentam do silêncio para tentar devolver voz às pessoas.

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Garota de 10 anos, olhos grandes e atentos, rosto redondo com sardas, cabelos castanhos em duas tranças, segurando uma pequena lanterna metálica com vidro amarelado, olhar corajoso e um pouco trêmulo; homem magro de cerca de 60 anos, pele pálida, casaco longo amarrotado e um saco nebuloso nas costas, fica um pouco atrás à direita com a mão estendida; uma Sombra sem rosto, silhueta negra e fluida com um sorriso branco exagerado, flutua atrás da abertura da tampa inclinada em direção à menina; cenário: velha ponte de pedra coberta de musgo, paralelepípedos irregulares e uma escotilha redonda de ferro enferrujado no centro que exala um sopro de névoa leitosa; cena principal: a menina sentada ao lado da escotilha cuja lanterna projeta um cone de luz quente que afasta a névoa, o homem observa preocupado e a Sombra recua sob a luz, atmosfera ao mesmo tempo assustadora e suave, contrastes fortes de preto e toques quentes ao redor da lanterna. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: A Rua que Sussurrava

Na vila de Pedra Fria, o arrepio não era inimigo. Era como um aperto de mão: “Olá, estou aqui. Presta atenção.” As pessoas diziam isso com naturalidade, como quem comenta o tempo.

Lia, uma menina de 9 anos, sabia bem. À noite, quando o vento passava pelas chaminés, fazia sons de flauta desafinada, e os postes piscavam como se tivessem medo do escuro. Mesmo assim, Lia tinha um segredo guardado no bolso do pijama: sonhava iluminar a estrada. Não só com lâmpadas. Com coragem.

Nessa tarde, a avó Amália entregou-lhe uma pequena lanterna antiga, de metal gasto e vidro amarelado.

“Esta lanterna já viu mais sombras do que eu vi bolos,” disse a avó, com um sorriso torto. “Mas só acende de verdade quando alguém sabe ouvir.”

“Ouvir o quê?” perguntou Lia.

“A rua. As árvores. Até o silêncio. Eles falam baixinho.”

Lia riu, meio nervosa. “Silêncio não fala.”

A avó piscou um olho. “Fala, sim. Só que é preciso ficar quieta para escutar.”

À noite, quando a vila dormiu, Lia ouviu um som diferente: um tilintar, como unhas finas no paralelepípedo. A janela tremia de leve, como se alguém respirasse frio do lado de fora. Ela pegou a lanterna e abriu a porta devagar.

A rua estava coberta por uma neblina que parecia leite derramado. Lá ao fundo, perto da velha ponte, uma sombra alta balançava, comprida como um poste sem luz.

“Boa noite, Lia…” sussurrou uma voz, fina e áspera, como papel amassado.

Lia engoliu em seco. O arrepio apertou-lhe a mão.

Capítulo 2: O Homem do Saco de Névoa

A sombra aproximou-se, deslizando. Não tinha pés que pisassem; parecia flutuar. Quando entrou na claridade fraca da lua, Lia viu: era um homem muito magro, de casaco comprido, com um saco nas costas. Mas o saco não era de pano. Era feito de neblina, amarrado por um nó de vento.

Os olhos dele eram duas bolinhas brilhantes, como botões de casaco.

“Eu sou o Carregador de Murmúrios, disse ele. “Levo para longe as vozes que ninguém escuta.”

Lia apertou a lanterna com as duas mãos. “Por que está aqui?”

O homem inclinou a cabeça, e o casaco fez um som de folhas secas. “A tua vila anda surda. Quando ninguém escuta, os murmúrios ficam pesados. Pesados… e escuros.”

Atrás dele, a neblina se mexeu e formou rostos rápidos, como caras desenhadas na janela em dia de chuva. Eles não gritavam. Só abriam a boca, sem som.

Lia quis correr. Mas lembrou-se do segredo: iluminar a estrada.

“Eu posso… eu posso ajudar?” perguntou, mais para a lanterna do que para o homem.

O Carregador de Murmúrios esticou uma mão longa. Os dedos eram como galhos finos.

“Se quiseres ajudar, vem até a ponte. Há uma coisa presa ali. Uma coisa antiga. Ela engole sons.”

Lia deu um passo. A lanterna piscou, como se tossisse. Um friozinho subiu-lhe pelos braços, mas ela foi. Cada passo parecia uma pergunta.

No caminho, ela ouviu a rua. Não com os ouvidos apenas. Com o peito. O paralelepípedo dizia “cuidado”, a sebe dizia “devagar”, e o vento dizia “ouve”.

“Estou a ouvir,” murmurou Lia, tentando ser corajosa.

E, por um momento, a lanterna brilhou um pouco mais.

Capítulo 3: A Ponte dos Suspiros Presos

A velha ponte era de pedra escura, coberta de musgo. Diziam que, se ficasse muito tempo ali, escutava suspiros que não eram teus. Naquela noite, parecia que a ponte tinha uma garganta entupida.

No meio do arco, havia uma forma redonda no chão, como uma tampa enferrujada. De dentro, vinha um ruído baixo: “hmmm… hmmm…”, como se alguém tentasse cantar com a boca cheia.

O Carregador de Murmúrios apontou. “Aí está. A Boca do Silêncio. Ela come o que as pessoas não querem ouvir.”

Lia ajoelhou-se e encostou o ouvido na tampa. O arrepio apertou-lhe a mão com força. Mas, por baixo do ruído, ela captou uma coisa: uma voz pequenina, quase apagada.

“Lia… Lia… não me deixes aqui…”

Ela reconheceu. Era a voz do Tiago, o menino do lado, que ria alto de dia e tinha medo de noite.

“Tiago?” sussurrou. “És tu?”

“Eu… eu escondi o choro… e ele caiu aqui… agora não sei como tirar…”

Lia abriu a boca, mas não saiu palavra. Ela não sabia o que dizer. O Carregador de Murmúrios inclinou-se, e o saco de neblina tremeu.

“Para abrir a Boca do Silêncio,” explicou ele, “não serve força. Serve escuta. Tens de ouvir sem interromper. Sem rir. Sem dizer ‘não é nada'.”

Lia respirou fundo. O musgo cheirava a chuva antiga. Ela acendeu a lanterna e apontou para a tampa. A luz era fraca, mas fazia sombras dançarem como pequenos fantasmas tímidos.

“Tiago,” disse Lia, com calma, “conta-me. Eu estou a ouvir.”

E então veio, como uma onda que estava presa atrás de um dique: o choro invisível do Tiago, em palavras.

“Eu digo que sou valente, mas quando o meu pai sai à noite para trabalhar, eu imagino barulhos… e fico com medo. E eu não queria que ninguém soubesse.”

Lia não riu. Não apressou. Só ouviu. E, enquanto ela ouvia, a lanterna ficou mais quente na mão, como um coração a bater.

A tampa rangeu. Um sopro saiu, levando consigo um fio de som, brilhante como um vaga-lume.

O Carregador de Murmúrios soltou um “oh” surpreendido. “Estás a abrir caminho.”

Mas a ponte estremeceu. A Boca do Silêncio não gostava de perder comida.

Capítulo 4: O Riso da Sombra Sem Cara

A neblina subiu como um lençol puxado com pressa. E dela saiu outra coisa: uma sombra mais escura do que a noite, sem rosto, mas com um sorriso desenhado em branco, largo demais.

Ela deu uma gargalhada que não era som; era vibração no osso.

“Escutar?” sibilou a Sombra Sem Cara. “Escutar faz as pessoas fracas. Dá-lhes lágrimas. Dá-lhes tempo. E eu tenho fome de pressa!”

Lia sentiu as pernas moles. O Carregador de Murmúrios recuou, como se aquela sombra fosse a única coisa que o assustava.

“Ela chama-se Atalho,” murmurou ele. “A Sombra do ‘não tenho tempo'. Ela corta as conversas, apaga os pedidos, engole os ‘preciso de ti'.”

A Sombra Sem Cara avançou, e a ponte ficou mais fria. A lanterna de Lia piscou, quase a apagar.

“Dá-me essa luz,” rosnou a sombra. “Luz é atenção. Atenção é o que eu odeio.”

Lia teve vontade de fechar os olhos. Mas lembrou-se da avó: “A lanterna só acende de verdade quando alguém sabe ouvir.”

Então Lia fez algo simples. Não gritou. Não correu. Endireitou-se, segurou a lanterna ao peito e falou com a sombra como se falasse com um colega que se portou mal.

“Eu vou ouvir na mesma,” disse ela. “Mesmo que dês medo.”

A sombra pareceu confusa, como um cão que não entende uma palavra nova. E Lia percebeu: a Sombra Sem Cara era forte quando ninguém prestava atenção. Mas, quando alguém olhava com calma, ela tremia um pouco.

Atrás da tampa, mais vozes surgiram, fininhas: o medo do Tiago, a saudade da dona Celeste do marido, a raiva pequena do Rui que ninguém levou a sério, a tristeza do senhor Joaquim que falava sozinho no banco da praça.

A sombra esticou os braços, tentando apanhar aqueles sons.

“Não!” disse Lia, e a palavra saiu clara. “Um de cada vez. Eu ouço.”

Ela apontou a lanterna para o chão e deixou a luz cair como um tapete. Não era uma luz forte; era uma luz teimosa. E essa teimosia parecia um feitiço.

A Sombra Sem Cara recuou, rangendo, como porta velha.

“Não me olhes assim… com calma…” choramingou ela, e o sorriso branco falhou, como giz a partir-se.

O Carregador de Murmúrios, tremendo, sussurrou: “Continua. Ouvindo, tu iluminas a estrada por dentro.”

Capítulo 5: A Estrada Acende

Lia sentou-se no meio da ponte, como quem decide ficar. A neblina rodopiava, mas já não parecia um monstro; parecia só confusão.

“Quem é o próximo?” perguntou Lia, com voz macia.

A voz do senhor Joaquim veio primeiro, lenta. “Eu falo com a árvore da praça… porque ela não me manda calar.”

Lia ouviu. Não comentou. Só disse: “Entendo. Deve ser bom ter alguém que fica.”

A lanterna brilhou mais um pouco, e o vidro amarelado pareceu dourado, como mel.

Depois veio a dona Celeste. “Eu finjo que não dói… mas dói.”

“Eu estou aqui,” respondeu Lia. E a luz cresceu.

Cada vez que Lia ouvia, um fio de claridade escapava da lanterna e descia pela ponte, correndo pelos paralelepípedos como um riacho de luz. A estrada, lá fora, começou a acender-se sozinha: um poste piscou, depois ficou firme; outro fez o mesmo. Não era magia barulhenta. Era como quando alguém arruma um quarto devagar e, de repente, dá para respirar melhor.

A Sombra Sem Cara encolheu, ficando do tamanho de um gato molhado.

“Eu… eu só queria que ninguém parasse…” resmungou ela, com voz pequena.

Lia inclinou a cabeça. “E por que queres isso?”

A sombra ficou quieta. Depois, como quem confessa uma coisa feia: “Porque quando as pessoas param para ouvir… elas juntam-se. E quando se juntam, eu fico sozinha.”

Lia sentiu pena. Até do medo, às vezes, dá para ter pena.

“Então… escuta também,” disse ela, oferecendo a luz como quem oferece uma cadeira. “Não precisas ficar sozinha.”

A Sombra Sem Cara hesitou. O sorriso branco desapareceu, e no lugar surgiu um contorno simples, quase humano. Ela não virou amiga de repente; ainda era sombra. Mas era uma sombra que respirava menos pesado.

O Carregador de Murmúrios soltou o nó do saco de neblina. De dentro saíram murmúrios como passarinhos libertos, voando para as casas certas.

“A tua vila não está mais surda,” disse ele, com alívio. “Tu abriste a Boca do Silêncio com escuta. E a estrada… olha.”

Lia olhou. A rua, antes um corredor escuro, agora era uma fita de luz suave, guiando até às portas. Parecia que a noite tinha aprendido a sorrir sem assustar.

“Eu… eu iluminei,” murmurou Lia, espantada.

“Iluminaste com ouvidos,” disse o Carregador, e fez uma pequena vénia. “Isso é raro.”

Lia voltou para casa antes do sol nascer. A avó Amália estava na cozinha, como se já soubesse.

“Então?” perguntou a avó, mexendo o chá.

Lia bocejou, mas os olhos brilhavam. “A rua falava. E eu ouvi.”

A avó sorriu, como quem fecha um livro com cuidado. “Boa menina. Lembra-te: a coragem não é não sentir medo. É segurar a lanterna e ouvir na mesma.”

Lia subiu para a cama. Lá fora, o vento ainda fazia música nas chaminés, mas agora parecia uma canção de embalar. E, quando o arrepio veio despedir-se com um aperto de mão, Lia apertou de volta, tranquila, e adormeceu com a certeza de que, às vezes, a melhor luz começa em silêncio.

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Neblina
Névoa fina que deixa o ar branco e esconde coisas à distância.
Paralelepípedo
Pedra usada para calçar ruas, dura e de forma irregular.
Paralelepípedos
Várias pedras usadas para formar a estrada da vila.
Musgo
Planta verde e macia que cresce sobre pedras e troncos úmidos.
Arrepio
Sensação de frio ou medo que faz a pele ficar arrepiada.
Sussurrou
Falar muito baixo, quase como um segredo ao ouvido.
Murmúrios
Sons baixos e suaves, como vozes que não se conseguem ouvir bem.
Boca do Silêncio
Abertura que guarda sons presos e não deixa que se ouçam.
Rangeu
Som áspero que algo faz quando se mexe, como porta velha.
Teimosia
Qualidade de não desistir ou não mudar de ideia facilmente.
Vibração
Pequeno tremor ou movimento que se sente ou se ouve.

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