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História de Artista 9 a 10 anos Leitura 11 min.

A lanterna de Tomás e o caminho da imaginação

Tomás, um artista bloqueado, encontra inspiração ao desenhar um personagem e um caminho, aprendendo a escutar opiniões sem se deixar dominar e a valorizar o processo criativo e o descanso.

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Tomás sorri suavemente, aliviado e calmo, olhos brilhantes; veste avental manchado de tinta, camisa com mangas arregaçadas e cabelo despenteado, guardando pincéis junto a um grande cavalete de madeira onde há uma pintura de um menino de ~10 anos com grande chapéu de pena e pequena lanterna, olhando curioso e corajoso para um caminho de pedras iluminado. O sótão oficina tem vigas expostas, janela redonda com luar azul, pilhas de papéis, frascos de água tingida, caixa de tubos de tinta aberta com gotas grossas e paleta colorida; uma lâmpada amarela aquece a bancada criando contrastes entre sombras suaves e reflexos brilhantes; respingos de tinta seca e panos amassados no chão de tábuas dão textura artesanal. Atmosfera íntima e criativa, tranquila à noite e acolhedora para crianças; estilo com pinceladas visíveis, textura espessa de acrílico e paleta de azuis noturnos, amarelos quentes e verdes suaves. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

Tomás entrou no seu pequeno estúdio com passos leves, como quem não quer acordar a casa. Era um quarto no sótão, com uma janela redonda por onde a lua espreitava. Havia pincéis num copo, lápis bem apontados, caixas de tintas, folhas empilhadas e um cavalete que parecia um amigo paciente.

Ele acendeu uma luz amarela e sentou-se diante de uma folha branquinha, tão limpa que quase brilhava.

Tomás era artista. Desenhava, pintava e inventava imagens para livros, cartazes e até para a montra da pastelaria da esquina. Às vezes fazia um gato com bigode de rei. Outras vezes, uma cidade inteira dentro de uma chávena de chá. O trabalho dele era dar forma ao que as pessoas imaginavam.

Mas naquela noite, a folha branca parecia uma parede.

Tomás pegou num lápis. Encostou a ponta ao papel. Nada saiu. O lápis ficou ali, tímido.

Ele suspirou e olhou ao redor. No estúdio, tudo parecia pronto. Só o seu cérebro estava em silêncio, como uma rádio que perdeu a estação.

Tomás não estava triste exatamente. Estava… preso. E, quando um artista fica preso, até o relógio faz “tic-tac” com mais barulho.

Para tentar destrancar a cabeça, ele abriu a janela um bocadinho. Entrou ar frio e o cheiro das árvores. Ao longe, ouviu sons da rua. E, misturado com eles, um rumor estranho, como sussurros que vinham de um sítio que não era bem ali.

Tomás aproximou-se e escutou. Pareciam comentários de pessoas que ele não via. Comentários anónimos, como vozes que atravessavam uma parede invisível.

“Gosto de desenhos com muitas cores”, dizia uma voz apressada.

“Eu prefiro simples, com espaço para respirar”, murmurava outra.

“Arte a sério é a que parece fotografia”, resmungava alguém.

“Não! Arte a sério é a que parece sonho”, respondia uma voz risonha.

Tomás arregalou os olhos. As vozes não discutiam para magoar. Falavam como quem prova gelados diferentes: cada um com o seu sabor.

Ele fechou a janela devagar e voltou à folha. Talvez aquelas opiniões pudessem ajudar. Ou talvez fossem só mais uma coisa para o atrapalhar. Mesmo assim, ele decidiu observar como um artista observa: com curiosidade.

Capítulo 2

Tomás levantou-se e foi até à mesa das tintas. Abriu uma caixa como quem abre um tesouro. Lá dentro havia azuis profundos, vermelhos alegres, amarelos que pareciam limões, verdes de folhas e um preto que parecia noite.

Ele molhou o pincel num copo de água e fez um teste numa folha pequena. Uma mancha azul espalhou-se como uma poça no céu. Depois, ele limpou o pincel e tentou um traço fino com lápis. Era como uma linha de formiga a passear.

“Não sei o que fazer”, pensou, sem raiva. Só com honestidade.

Para não ficar parado, ele começou pelo gesto mais simples: desenhou um círculo. Um círculo não exige grande coragem. Depois, fez outro círculo ao lado. Pareciam dois olhos. Então acrescentou um nariz pequenino, torto, e uma boca que parecia querer contar uma piada.

De repente, tinha ali uma cara.

Tomás riu baixinho. “Olá, cara.”

A folha branca já não era uma parede. Era uma porta entreaberta.

As vozes voltaram, distantes, como se estivessem num corredor.

“Parece infantil”, disse uma voz seca.

“Que fofinho! Dá vontade de abraçar”, respondeu outra.

“Eu gostava mais se fosse mais realista.”

“Eu gosto quando é estranho. Estranho é divertido!”

Tomás pousou o lápis. O coração dele deu um saltinho desconfortável com a palavra “infantil”. Mas depois lembrou-se: ele estava a desenhar para crianças, para leitores de nove e dez anos, que tinham imaginação suficiente para fazer um dragão morar numa garagem.

E além disso… “infantil” não era um insulto. Era um estilo. E estilos eram como línguas diferentes: cada um diz coisas que os outros não dizem.

Tomás acrescentou ao rosto um chapéu enorme, com uma pena. O chapéu parecia um guarda-chuva ao contrário. Depois desenhou o corpo: um casaco comprido, bolsos fundos e sapatos grandes, como se o personagem andasse sempre pronto para correr atrás de aventuras.

Sem perceber, Tomás já estava a trabalhar. E trabalhar, para um artista, não é só fazer bonito. É testar, apagar, tentar outra vez. É como aprender a andar de bicicleta: com algumas quedas, mas também com vento na cara.

Capítulo 3

Tomás decidiu que aquele personagem precisava de um mundo. Pegou numa folha maior e colocou-a no cavalete. A folha grande voltou a assustá-lo por um segundo, como um lago muito fundo.

Ele respirou. Lembrou-se do que fazia quando ajudava um sobrinho a montar um puzzle: começava pelas bordas.

Então, desenhou uma linha de chão. Depois, ao fundo, montanhas arredondadas, como costas de baleias. Acrescentou árvores finas, com folhas em forma de nuvem. E no meio, desenhou uma estrada de pedras, que parecia um colar perdido no chão.

Pintar era um trabalho feito de pequenas decisões. Onde vai a luz? Onde vai a sombra? Que cor grita e que cor sussurra?

Tomás molhou o pincel em amarelo clarinho e pintou uma faixa de luz no caminho. Logo a seguir, pegou num castanho suave para as sombras, como se o sol estivesse a deitar-se.

Ele fez pausas curtas para olhar. Um artista olha muito. Olha para ver se o desenho respira. Se as cores se dão bem. Se o personagem parece vivo.

As vozes anónimas voltaram, como passarinhos a comentar do alto.

“Está demasiado vazio.”

“Está perfeito! O vazio dá calma.”

“Não entendo nada, parece esquisito.”

“Adoro esquisito. Esquisito é corajoso.”

Tomás sentiu uma pontada. “E se ninguém gostar?”

Mas depois lembrou-se de outra coisa que aprendera com o tempo: a arte não é uma corrida para vencer. Não é uma competição. É uma conversa. Às vezes, uma conversa silenciosa.

Ele imaginou as pessoas a olharem para a mesma imagem com olhos diferentes. Uma pessoa podia gostar do amarelo porque lembrava verão. Outra podia preferir cinzento porque lembrava chuva e cheiro a terra. Nenhuma estava errada. Só estavam a ser elas mesmas.

Tomás acrescentou um detalhe: no bolso do casaco do personagem, desenhou um pequeno caderno. E, na mão dele, uma lanterna. Assim, ele podia explorar o caminho, mesmo quando a noite chegasse.

Tomás sorriu. Também ele, artista, usava uma lanterna invisível: a curiosidade.

Capítulo 4

Quando o desenho já tinha forma, Tomás sentiu a cabeça cansada, como se tivesse corrido uma maratona dentro do próprio pensamento. O estúdio continuava quieto, mas agora parecia aconchegante. Havia manchas de tinta no guardanapo, água com cor de chá no copo e um cheiro leve a papel.

Ele recuou e observou o trabalho. O personagem com chapéu e pena estava no caminho iluminado, pronto para uma aventura. Era simples, mas tinha vida.

Mesmo assim, Tomás ouviu as vozes outra vez, mais misturadas, como se viessem de um rádio mal sintonizado.

“Devias fazer melhor.”

“Está ótimo para crianças.”

“Falta detalhe!”

“Detalhe cansa.”

“Eu não faria assim.”

“Eu faria exatamente assim!”

Desta vez, Tomás não se encolheu. Ele percebeu algo importante: aquelas vozes não mandavam nele. Eram só ecos de preferências, como quando alguém diz que gosta mais de chocolate do que de morango.

Tomás encostou a mão ao peito e falou consigo, baixinho, como quem consola um amigo: “O meu trabalho não precisa agradar a toda a gente. Precisa ser honesto. Precisa contar algo.”

E o que ele queria contar? Queria contar que criar é tentar. É falhar e tentar de novo. É mudar uma cor porque não parece certa. É apagar um olho que ficou torto e rir disso. É também saber parar.

Ele pegou num lápis e escreveu, no caderno do personagem desenhado, umas linhas pequenas que ninguém iria ler, mas que ele sabia que estavam lá. Como um segredo bom: “Experimentar. Escutar. Respeitar. Descansar.”

Tomás guardou os pincéis. Limpou-os com cuidado, porque os pincéis são como companheiros de trabalho. Se são bem tratados, ajudam por muito tempo. Arrumou as tintas, fechou as caixas e empilhou as folhas.

A folha principal ficou no cavalete, a secar, tranquila.

Tomás apagou a luz do estúdio e ficou um instante no escuro, só com a lua na janela. Sentiu um peso sair dos ombros.

Capítulo 5

Antes de descer as escadas, Tomás voltou a olhar para o desenho. Não procurou defeitos. Procurou o caminho que tinha feito desde o primeiro círculo.

Ele lembrava-se de como estava preso diante da folha branca. E agora ali estava: um mundo inteiro, um personagem com lanterna e um caminho de luz.

Tomás compreendeu que, às vezes, a melhor parte do trabalho de um artista não é o resultado final. É aprender a continuar mesmo com dúvidas. E aprender a respeitar a diversidade dos estilos, como respeitamos as pessoas: cada uma com o seu jeito, o seu ritmo, a sua cor.

As vozes anónimas ainda estavam lá, bem ao longe, mas pareciam mais fracas, como vento que passa e segue adiante.

Tomás sussurrou: “Obrigada por falarem. Mas agora é hora de dormir.”

Ele desceu, lavou as mãos, sentindo a água levar embora um pouco de tinta e muita tensão. Deitou-se na cama com o corpo cansado e a mente mais leve.

E, pela primeira vez naquela noite, não se culpou por parar. Entendeu que descansar também faz parte do trabalho. O descanso é onde as ideias respiram e crescem, como sementes na terra escura.

Tomás fechou os olhos. Imaginou o seu personagem com chapéu, caminhando devagar pelo caminho iluminado. Não corria. Não precisava. A lanterna bastava.

E Tomás adormeceu com a sensação tranquila de que, amanhã, a folha branca não seria inimiga. Seria apenas um começo.

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Estúdio
Um quarto de trabalho para artistas, onde se pinta, desenha e guarda materiais.
Sótão
Parte alta da casa, junto ao telhado, geralmente pequena e com janelas.
Cavalete
Suporte onde se coloca a folha ou tela para pintar de pé.
Pincéis
Ferramentas com cerdas para aplicar tinta nas folhas ou telas.
Tintas
Materiais coloridos líquidos usados para pintar desenhos e quadros.
Lanterna invisível
Imagem que diz uma luz imaginária que ajuda a explorar ideias.
Silêncio
Ausência de barulho, momento calmo para pensar ou ouvir ideias.
Caderno
Livro de folhas para escrever notas, desenhos ou segredos pessoais.
Maratona
Grande esforço longo, aqui significa pensar muito por bastante tempo.
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