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História do Ramadan 5 a 6 anos Leitura 14 min.

A lamparina que iluminou a partilha na Rua das Acácias

Zizi, uma coelhinha que ama cantar, organiza uma troca de receitas entre vizinhos e envolve o prédio numa noite de partilha, empatia e um pequeno mistério.

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Zizi, uma pequena coelha de orelhas longas brancas e pelo amarelo às bolinhas, sorri segurando um prato de bolinhos de cenoura e mel; Nuno, um ratinho cinza com colete azul, está sentado num almofadão segurando uma tigela de sopa, tímido e agradecido; o señor Amir, um gato gris elegante de bigodes brancos e avental verde, está perto da lâmpada de cobre estendendo a mão para a pequena lamparina que Lina, uma gata miúda de pelagem creme corada e aliviada, segura; a dona Salma, uma tartaruga redonda com lenço florido, oferece um prato de tâmaras com amêndoas; Paco, um papagaio verde vivo, pousa no encosto de uma cadeira com um copinho de suco; a sala comum é acolhedora, com mesa baixa de madeira escura, tapetes coloridos, almofadas bordadas, paredes com padrões geométricos e luzes douradas; cena de partilha ao fim do dia para o Ramadã em torno da lamparina central, atmosfera calorosa e gestos de partilha. reportar um problema com esta imagem

1) A troca de receitas na porta do prédio

Na Rua das Acácias, onde as janelas tinham cortinas coloridas e os vasos sorriam com flores, morava a Zizi, uma coelha de orelhas compridas e voz de passarinho. A Zizi adorava cantar. Cantava quando varria o tapete, cantava quando regava a hortelã, cantava até quando procurava a meia que sempre desaparecia.

Naquela tarde morna, ela pôs um avental amarelo com um bolso grande e saiu para o corredor com um caderno de receitas debaixo do braço. O cheiro de canela vinha de algum apartamento, e o cheiro de pão quentinho vinha de outro. Era mês de Ramadan no bairro, e a Zizi tinha reparado que, perto do fim do dia, as cozinhas viravam pequenas fábricas de carinho.

— Viziiinhos! — chamou ela, afinando a voz como se fosse começar um concerto. — Que tal uma troca de receitas? Eu dou uma, você me dá outra, e a gente enche o prédio de cheiros felizes!

A primeira porta a abrir foi a do senhor Amir, um gato cinzento com bigodes brancos e olhar calmo. Ele segurava uma tigela coberta com um pano.

— Troca de receitas? — miou ele, divertido. — Isso soa… delicioso.

— Eu trago a minha receita de bolinhos de cenoura com mel! — disse Zizi. — E você me dá uma receita sua.

O senhor Amir sorriu.

— Hoje estou a preparar sopa de lentilhas. É simples, mas abraça a barriga. Posso escrever para ti.

A porta ao lado abriu com um “toc-toc” apressado. Era a Dona Salma, uma tartaruga elegante, com lenço estampado e óculos redondos.

— Eu ouvi “receitas”! — disse ela, com voz de chá quente. — Tenho uma de tâmaras com amêndoas que dá energia e alegria.

Mais duas portas se abriram: o Paco, um papagaio verde que falava alto demais, e a Lina, uma gata miúda que ria com os olhos.

— Eu sei uma receita de sumo de limão com hortelã! — gritou Paco, quase cantando.

— E eu posso ensinar pão fofinho — disse Lina. — Mas aviso: ele desaparece rápido.

Zizi pulou de contentamento. O corredor parecia uma festa antes da festa. Ela abriu o caderno e começou a anotar, enquanto inventava uma música baixinha:

“Uma receita vai, outra vem, o coração fica cheio também…”

— Zizi, tu cantas até com a caneta — brincou Paco.

— Claro! — respondeu ela. — Se a vida me dá lápis, eu canto letras!

Enquanto combinavam horários para cozinhar juntos, Zizi reparou numa coisa: nem todo mundo no prédio tinha a mesma energia. No fim do dia, alguns vizinhos pareciam mais cansados e mais quietos, como se estivessem guardando força para um momento especial.

Zizi inclinou a cabeça, curiosa, e pensou: “Quero aprender a agradecer a vida por estas coisas pequenas… o cheiro, as portas que se abrem, as vozes no corredor.”

2) Cheiros, risos e um mini-mistério

No dia seguinte, Zizi acordou cedo e cantou para a chaleira:

“Água a ferver, dia a nascer!”

Depois foi ao mercado com a sua sacola de pano. As bancas tinham cores de arco-íris: cenouras laranjas, limões amarelos, folhas verdes que pareciam abaninhos. O vendedor, um ouriço com chapéu, entregou-lhe um punhado de hortelã tão fresca que parecia ter acabado de rir.

— Obrigada! — disse Zizi, e desta vez falou bem devagar, como se a palavra fosse um presente. — Obrigada pela hortelã… e pelo teu sorriso.

O ouriço piscou, surpreso e contente.

Em casa, Zizi começou a preparar os bolinhos de cenoura com mel para a troca. Misturou farinha, cenoura ralada e um fio dourado de mel. O cheiro subiu e fez cócegas no nariz. Ela cantou baixinho para a massa crescer feliz.

Quando a tarde avançou, ela foi ao apartamento do senhor Amir com uma travessa na mão. No corredor, viu uma lamparina pequenina em cima de uma mesa, ao lado de um pratinho com tâmaras. A lamparina estava acesa e tremia como uma estrelinha.

— Que bonito… — murmurou Zizi.

— É uma luz de boas-vindas — explicou o senhor Amir, abrindo a porta. — Gosto de acendê-la ao fim do dia. Ajuda a lembrar que a partilha ilumina.

Zizi entrou e ficou de olhos arregalados: a cozinha do gato cheirava a cebola dourada e cominho. A sopa de lentilhas borbulhava, e o som parecia um aplauso pequenino.

— Aqui está a tua sopa em receita — disse Amir, entregando um papel. — E prova um pouco. Está quase pronta.

Zizi provou e abriu um sorriso tão grande que quase caiu das orelhas.

— Obrigada, vida, por existir sopa — sussurrou ela, e depois riu, meio envergonhada. — Quer dizer… obrigada por tu cozinhares assim!

O gato riu também.

No apartamento de Dona Salma, as tâmaras brilhavam como caramelos escuros. A tartaruga ensinou Zizi a colocar uma amêndoa dentro de cada tâmara, com cuidado, como se estivesse a guardar um segredo doce.

— A empatia é assim — disse Dona Salma. — A gente tenta imaginar o que o outro sente. Às vezes, um gesto pequenino é como uma amêndoa: não aparece, mas faz diferença.

Zizi guardou aquela frase no bolso do avental, junto com uma migalha de alegria.

Mas aí aconteceu um mini-mistério.

Quando Zizi voltou ao corredor para continuar as visitas, a lamparina pequenina… tinha desaparecido.

A mesa estava vazia. Nada de luz, nada de estrelinha.

— Ué… — disse Zizi, e a sua voz ficou baixinha. Ela olhou para os lados, espiou atrás do vaso de samambaia, olhou até dentro do seu próprio cesto de bolinhos (só bolinhos, infelizmente).

Paco passou voando, com um guardanapo na cabeça como se fosse um chapéu.

— O que foi, Zizi? Perdeu uma orelha? — perguntou ele.

— A lamparina do corredor sumiu! — respondeu Zizi. — Era tão bonita… e parecia importante.

Lina chegou com farinha no focinho.

— Talvez alguém a tenha levado sem querer — disse ela. — Aqui todo mundo anda com as patas ocupadas.

Zizi sentiu um apertinho, mas respirou. Lembrou das palavras de Dona Salma: imaginar o que o outro sente. Talvez alguém tivesse mesmo levado por engano.

— Vamos procurar com calma — disse Zizi. — Sem culpar ninguém. Com olhos de gentileza.

E ela começou a cantar uma canção de procurar coisas, que fazia o coração ficar corajoso:

“Procura daqui, procura dali, com paciência eu acho sim…”

Foram ao elevador, à escada, ao tapete da entrada. Perguntaram com educação a quem passava. Alguns diziam “não vi”, outros diziam “que pena”, e um esquilo do último andar disse:

— Eu vi uma luzinha… mas achei que fosse um vagalume a passear!

Zizi riu, porque imaginar um vagalume com pressa era engraçado. E aquela risada tirou um pouco do peso do peito.

3) A noite de partilha e a luz que aprende a descansar

Quando o sol começou a descer, o prédio inteiro ficou com um brilho de final de tarde. As cozinhas terminaram os preparos, e o corredor virou um caminho de pratos: sopa de lentilhas, pão fofinho, sumo de limão com hortelã, bolinhos de cenoura, tâmaras recheadas, e até uma travessa de arroz com passas que alguém trouxe “só porque sim”.

Os vizinhos juntaram-se na sala comum do prédio. Não era uma sala chique, mas era uma sala com calor: almofadas no chão, uma toalha comprida na mesa e copos alinhados como pequenos soldados felizes.

Zizi, sempre a cantar, ajudou a arrumar tudo. E, a cada coisa colocada na mesa, ela fazia um agradecimento baixinho:

— Obrigada, vida, por cenouras. Obrigada, vida, por limões. Obrigada, vida, por vizinhos que dizem “entra, fica”.

O senhor Amir ouviu e sorriu. Dona Salma deu uma palmadinha carinhosa na mão de Zizi.

— O agradecimento deixa o dia mais leve — disse a tartaruga.

— E deixa a comida mais saborosa — acrescentou Paco, já com o bico perto do pão.

Quando chegou o momento de comer, todos esperaram com respeito e paciência. Havia uma calma bonita no ar, como se a sala inteira respirasse junta. Depois, começaram a partilhar. Um servia o outro, alguém perguntava “quer mais?”, alguém dizia “obrigado”, e as palavras eram quentinhas.

Zizi notou um ratinho novo, sentado num cantinho. Ele não se aproximava da mesa. Tinha os olhos atentos, mas as mãos bem juntinhas no colo, como quem não quer atrapalhar.

Zizi chegou devagar, sem assustar.

— Olá! Eu sou a Zizi. Tu gostas de cantar? — perguntou ela, porque era o jeito dela começar amizades.

O ratinho abriu um sorriso pequenino.

— Eu gosto… mas tenho vergonha. Sou o Nuno. Mudei-me hoje.

— Vergonha é só um cobertor que a gente tira aos poucos — disse Zizi, suave. — Queres experimentar um bolinho? Eu posso trazer aqui.

Nuno olhou para a mesa, depois para Zizi.

— Não quero incomodar.

Zizi lembrou-se da empatia: como seria chegar novo, com barriga a dar voltas e coração também?

— Incomodar seria eu comer tudo sozinha — disse ela, com humor terno. — E eu prometi aos meus bolinhos que eles iam fazer amigos.

Nuno riu. Um riso fino, mas verdadeiro.

Zizi trouxe um pratinho com bolinho, pão e um copo de sumo de limão com hortelã. Sentou-se no chão ao lado dele, para ficar do mesmo tamanho, do mesmo mundo.

— Obrigado — disse Nuno, e depois, mais baixo: — Obrigado… vida.

Zizi piscou, feliz.

— Vês? A vida gosta quando a gente nota as coisas.

Nesse instante, a porta abriu com um “ai!” abafado. Era a Lina, a gata miúda, com algo escondido atrás das costas. Ela parecia um pouco atrapalhada.

— Pessoal… eu preciso confessar uma coisa — disse Lina.

O corredor ficou silencioso por um segundo, como quando a música pausa.

Lina revelou a lamparina pequenina.

— Eu levei sem querer — explicou ela, com as orelhas baixas. — Eu estava a arrumar as coisas e achei que fosse minha. Eu queria enfeitar a mesa… e depois não lembrei de devolver. Desculpem.

O senhor Amir levantou-se devagar e aproximou-se.

— Obrigado por dizer a verdade — disse ele, sem brigar. — Isso também ilumina.

Zizi sentiu o coração bater feliz. Era isso: empatia. Lina não tinha roubado; tinha se confundido. E agora estava a consertar.

— Acontece — disse Dona Salma. — O importante é a gente ter coragem de reparar.

Paco coçou a cabeça com a asa.

— Eu já levei uma colher na pata por engano. Passei dois dias a achar que eu tinha uma colher de estimação.

Todos riram. Lina riu também, aliviada.

A lamparina foi colocada no centro da sala. A luz tremia, como se estivesse a dançar com as conversas. Zizi cantou uma música baixinha para a noite:

“Luz pequena, luz a brilhar, obrigada por nos juntar…”

Nuno, o ratinho, olhou para Zizi e arriscou uma nota, quase um sussurro. Zizi ouviu e fez sinal com a cabeça, como quem diz “sim, vem”. E Nuno cantou mais um pouquinho. A vergonha dele pareceu diminuir, como um balão que solta ar devagar.

Quando a partilha terminou, começaram a arrumar. Cada um levou um prato, dobrou uma toalha, recolheu migalhas. Zizi percebeu que a alegria também mora nesses gestos simples, como se a vida dissesse: “Olha, eu estou aqui, no comum.”

Antes de irem embora, o senhor Amir aproximou-se da lamparina.

— Está na hora de ela descansar — disse ele.

Zizi olhou a chama. Parecia mesmo cansadinha, mas feliz.

— Obrigada, vida, por luz — sussurrou Zizi. — Obrigada por hoje.

O senhor Amir soprou com cuidado.

A lamparina apagou-se.

E, mesmo no escuro suave, o corredor ficou cheio de brilho: o brilho do que foi partilhado, do que foi pedido com carinho, do que foi perdoado com gentileza, e do que foi agradecido no coração.

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Corredor
O espaço dentro do prédio por onde as pessoas passam para ir aos apartamentos.
Avental
Peça de tecido que se usa na frente do corpo para proteger a roupa ao cozinhar.
Hortelã
Uma planta com folhas verdes e cheiro fresco, usada em chás e sumos.
Travessa
Um prato grande e raso onde se põe comida para todos partilharem.
Empatia
Quando tentamos entender e sentir o que outra pessoa sente.
Migalha
Um pedacinho muito pequeno de pão ou bolo.
Lamparina
Uma pequena luz com óleo ou vela que ilumina lugares.
Partilha
Quando dividimos comida, objetos ou tempo com outras pessoas.

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