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Mito fantástico 7 a 8 anos Leitura 14 min.

A lagoa do agradecimento

Connal, um homem viajante, parte numa pequena jornada pelo bosque para agradecer ao Carvalho Ancião, encontrando criaturas, enigmas e um velho guardião do vale enquanto aprende o valor do cuidado e da lembrança.

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Um homem chamado Connal, visage enrugado e cabelos loiros como trigo, derrama devagar uma pequena taça de casca brilhante na água de uma lagoa espelhada; uma menina de cerca de 8 anos, com longas tranças castanhas e vestido simples, agacha-se ao lado segurando um pedaço de pão que pousa na margem; um menino de cerca de 7 anos, cabelos curtos e joelhos com manchas de lama, aponta para um reflexo na água, em pé atrás da menina à direita de Connal; o Ancião do Vale, barbudo e de cabelos brancos com um manto bordado de estrelas, observa a alguns passos com as mãos cruzadas e sorriso calmo; uma raposa de pelagem cobreada está deitada aos pés de Connal; a margem de terra escura e juncos verdes cerca a lagoa lisa que reflete nuvens e uma lua baixa; luz crepuscular em tons índigo e violeta com toques prateados na água; composição centrada no ato de derramar a taça, atmosfera mágica e íntima com texturas aquareladas e realces brancos nos reflexos. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1

No vale onde as colinas cantavam com vento vivia Connal, um homem de cabelos como trigo e olhos como musgo antigo. Connal era conhecido por ser astuto: encontrava caminhos onde pareciam não existir, sabia ouvir os sussurros das pedras e conhecia as músicas que os rios esqueciam. Mas, apesar de sua malícia dócil, o que mais habitava o seu peito era um desejo simples — agradecer ao Ancião do Carvalho, aquele que guardava memórias da vila desde antes do primeiro galo.

Numa manhã clara, quando o orvalho pendia em pequenos espelhos nas folhas, Connal vestiu a capa de lã azul e segurou um saco com pão, sementes e uma flauta de madeira. Ele repetia para si, com voz baixa: "Hoje eu vou agradecer. Hoje eu vou agradecer." E cada vez que dizia, o vento parecia escutar e enfeitar a frase com folhas que dançavam.

Ele caminhou até o bosque sagrado, onde as árvores tinham nomes e histórias. Lá, no centro, erguia-se o Carvalho Ancião — tronco largo como três portas e ramos que tocavam o céu. O Ancião não falava como nós, mas falava como o mundo: em ecos, em lembranças, em risos de pássaros. Connal aproximou-se respeitosamente.

"Bom dia, Ancião," disse ele, com a voz que tinha a paciência de quem conta segredos. "Vim para agradecer."

Uma brisa respondeu, e foi como se o Carvalho inclinasse um ramo. "Quem agradece, recebe mais do que dá", sussurrou o bosque. Connal sorriu. Ele sabia que agradecer era uma viagem tanto quanto um gesto.

"Eu trago pão e sementes," disse Connal. "E uma flauta para quando a noite quiser ouvir histórias."

"Obrigado, viajante de trilhas," respondeu o ar. "Mas o que pesa no teu coração?"

Connal suspirou. "Tu me ensinaste caminhos antigos quando eu era jovem. Tu guardaste a sombra de meus pais e as chaves das manhãs. Hoje quero agradecer por aquilo que não consigo colocar em palavras." Seu olhar ficou distante, como quem vê um rio que corre por baixo das memórias.

Uma folha caiu e pousou nos pés de Connal, brilhando com um estranho brilho prateado. O brilho não era ouro nem prata; era algo entre a terra e a lua. Connal soube, no fundo, que aquilo era um sinal: a jornada de agradecimento estava só começando.

Capítulo 2

O Carvalho estendeu um galho e deixou cair uma pequena madeira em forma de moeda. "Vai ao espelho d'água," disse o bosque através de um sussurro, "e leva a canção que aprendeu com as pedras."

"Espelho d'água?" Connal repetiu. "Onde fica?"

"Segue as três pedras que riem," respondeu o vento. "Segue as três pedras que guardam as horas. Segue a canção que toca quando o luar penteia a relva."

Connal sorriu. Ele gostava de seguir enigmas que pareciam poemas. Recolheu a moeda de madeira e começou a caminhar. Pelo caminho, encontrou uma raposa de pelos cor de cobre, que o observava com atenção.

"Bom dia," disse Connal. "Tu viste as três pedras que riem?"

A raposa abanou a cauda e falou com voz baixa, clara como água em pedra: "Vejo muitas coisas. Vejo o riso das pedras quando crianças correndo jogam sombra nelas. Vejo o brilho da moeda que carrega a gratidão. Leva comigo um pouco de queijo, viajante."

"Obrigado," disse Connal, e tirou um pedaço de queijo do saco. "Por que falas?"

"Porque o bosque deixou," respondeu a raposa. "E porque eu gosto de ouvir. Levo-te até a primeira pedra."

Quando chegaram, Connal reconheceu as três pedras: eram redondas, lisas e empilhadas. Cada pedra tinha um pequeno sorriso trançado pelo musgo. Connal tocou a primeira e sentiu uma vibração calma. Ele cantou a canção que o Carvalho lhe ensinara — notas simples que pareciam passos de andarilho.

"Minha canção," disse Connal, e os versos saíram como gotas claras: "O caminho é luz, o caminho é pó, o caminho é o lugar onde o coração fez nó."

As pedras vibraram, e do centro delas emergiu uma trilha de luz prateada que apontava para a frente. "Segue," murmurou a raposa. "Segue a trilha que brilha quando o agradecimento é certo."

Na trilha, Connal encontrou outras criaturas: um corvo que trazia pequenas histórias nos bicos, uma lebre que conhecia atalhos, e crianças da vila que, curiosas, o acompanharam alguns passos. Eles todos sabiam que o Carvalho gostava quando alguém vinha com coração leve.

"Connal," disse uma menina com tranças, "por que agradeces tanto?"

"Porque as raízes da minha casa foram acolhidas por este bosque," respondeu ele. "Porque o homem mais velho do Carvalho segurou um segredo que me devolveu o riso. Quero agradecer também ao Ancião que vive além do rio — aquele que é feito de tempo e luar."

Os olhos das crianças brilharam. "Leva-nos com ti!" pediram em coro.

Connal sorriu e concordou. "Venham. Aprendam a agradecer. Aprendam a ouvir."

Capítulo 3

A trilha de luz levou-os ao rio que dividia a floresta em dois — um rio que cantava canções que pareciam promessas. Na outra margem, ergueu-se uma colina onde vivia o Ancião do Vale: um homem antigo de pele como casca e olhos como água parada. Ele não era uma árvore; era um humano que morava numa casa feita de lembranças. Diziam que ele tinha andado com reis e falado com as estrelas.

Connal parou. O coração bateu forte, não de medo, mas de reverência. Ele reuniu o grupo e, com cuidado, começou a preparar um pequeno gesto de agradecimento. "Cantaremos a canção das pedras e deixaremos pão e frutos ao pé de sua porta," explicou.

Mas quando foram atravessar a ponte de madeira, um vento forte soprou, e uma voz, grave e serena, os chamou: "Quem atravessa a ponte com pressa encontra espelho quebrado. Quem atravessa com calma encontra o espelho que cura."

"É o Ancião," murmurou uma criança. "Ele fala em enigmas."

Connal respirou fundo e falou, olhando para o outro lado: "Ancião do Vale, sou Connal. Venho agradecer-te por guardianear velhas histórias. Vim com amigos, com pão e canções."

Do outro lado, a porta da casa do Ancião rangeu e abriu-se lentamente. Um homem de barba longa, com um manto bordado em estrelas, apareceu. Seus olhos eram suaves como lago ao entardecer.

"Connal," disse ele, e a sua voz era quente como chá, "eu sei do teu caminho. Eu sei dos teus passos que deixam flores. Entrem. Contai-me antes de ofertar e eu contarei um segredo que vale dois agradecimentos."

Entraram na casa. Lá dentro havia mapas feitos de folhas, cordas que prendiam dias, e pequenas ânforas cheias de luz. As crianças sentaram-se ao lado do fogo. A raposa cochilou numa almofada.

"Conta tua história," pediu o Ancião. "O agradecimento é um diálogo."

Connal contou — sobre o Carvalho, sobre os caminhos, sobre o dia em que a chuva quase levou a ponte e o Ancião havia sussurrado a ideia de construir um abrigo que segurou a água e os corações. "Eu guardo o que aprendi," disse Connal. "E sinto que agradecer é como plantar uma semente que cresce em paz."

O Ancião sorriu e disse: "A paz cresce onde se semeia cuidado. E cuidado é a lembrança do toque. Eu também quis agradecer-te, Connal." Ele levantou uma pequena taça feita de casca brilhante. "Recebe isto: uma água de lembrança. Se a derramares no lugar certo, verás o passado sorrir e o futuro acalmar."

"Para onde devo levá-la?" perguntou Connal.

"Para a antiga lagoa que espelha o céu," respondeu o Ancião. "Leva-a e diz as mesmas palavras que o Carvalho te ensinou. Mas lembra: as palavras devem ser ditas com mãos abertas e peito tranquilo."

As crianças ajudaram Connal a preparar a caminhada. Levaram o pão, as sementes, a taça de casca brilhante e, sobretudo, a canção. O Ancião acompanhou-os até a porta e soltou esta última instrução: "Caminhai devagar. Escutai. Agradecer é também aprender a ficar em silêncio."

Capítulo 4

O caminho até a lagoa era emoldurado por flores que piscavam como lâmpadas e pedras que murmuravam canções antigas. Connal e seu grupo andaram em silêncio, não por falta de palavras, mas por respeito ao que vinha. À medida que se aproximavam, a terra parecia prender a respiração.

Quando chegaram, a lagoa era mais bela do que qualquer um poderia descrever: rodeada por junco, com água tão lisa que parecia um pedaço do céu caído. A superfície brilhava e refletia as nuvens, as estrelas e os rostos de quem se aproximava. Era um espelho que aceitava tudo sem julgar.

Connal colocou a taça de casca sobre a margem. "Agora," ele disse às crianças, "vamos dizer a canção. Vamos oferecer o pão e as sementes. Vamos agradecer como quem planta paz."

Ele ergueu a flauta e tocou a canção aprendida com o Carvalho. As notas foram como pequenos passos de luz que dançaram sobre a água. Depois, Connal depositou o pão e as sementes ao lado da taça. Com as mãos abertas, derramou lentamente a água de lembrança na lagoa.

Ao tocar a água, algo suave aconteceu: a lagoa respondeu com um brilho prateado, como se tivesse reconhecido um velho amigo. "Obrigado," sussurrou Connal, e suas palavras roçaram a lâmina do lago como plumas.

A superfície começou a tremeluzir e, por um instante, a água mostrou imagens: o Carvalho quando jovem, crianças a correr nos prados, o próprio Ancião a plantar uma árvore. Eram lembranças que não pesavam; eram lembranças que ensinavam. As crianças olharam, maravilhadas. A raposa abanou o rabo com ternura.

"Vês?" disse o Ancião, que tinha vindo silenciosamente até a margem. "A lembrança que se agradece volta mais calma. A paz se espelha e multiplica."

Connal sentiu o peito quente. "Eu agradeço por receber estes dias," disse, olhando para o Ancião. "Eu agradeço por me mostrares que agradecer é partilhar o que há de mais forte: a memória que acalma."

O Ancião sorriu. "E eu agradeço-te por teres vindo com gentileza. Obrigado por ensinares crianças a cantar e a escutar. Obrigado por mostrares que um homem astuto pode ser também um homem gentil."

As crianças, em coro, disseram: "Obrigado!" e a lagoa sorriu como um espelho a brilhar. Por um momento, tudo foi leve como uma folha flutuando no ar.

Antes de partirem, Connal pegou um punhado de água e deixou cair sobre suas próprias mãos. A água sentiu-se como um lembrete — fresca, direta, serena. Ele soprou sobre as mãos e disse ao grupo: "Levem consigo a paz. Leve-a em voz, em gesto, em cuidado."

O Ancião tocou o ombro de Connal. "Lembra-te: agradecer é um caminho que volta para casa. Volta a nós sempre que precisares de lembrar o que é paz."

Connal olhou para o espelho d'água uma última vez. O reflexo mostrou seu rosto mais tranquilo, com olhos que agora guardavam a luz de alguém que tinha dado mais do que oferecido — tinha recebido e aprendido. "Até breve," susurrou ele.

No retorno, a trilha de luz prateada seguiu-os por um pedaço. As crianças cantavam, a raposa correrela, e o corvo, no alto, repetia a canção. O mundo parecia ter um ritmo novo, um compasso feito de gratidão.

Quando chegaram ao Carvalho, Connal colocou um pedaço de pão nas raízes e tocou a flauta uma última vez. "Obrigado, Ancião," disse, e o bosque respondeu com um cocuruto de folhas que pareciam um sorriso.

E naquela noite, ao se retirar para sua casa, Connal sentiu que a malícia astuta de seus passos havia sido temperada com um calor novo: o calor de quem sabe além de trilhas, sabe como dar e receber paz.

A lua subiu, clara e amiga, e a lagoa, já distante, continuava a espelhar estrelas. No coração de Connal havia uma certeza simples, repetida como um refrão: agradecer é plantar paz; agradecer é ver o mundo brilhar.

E assim, quando o vento passou e contou a história aos pinheiros, todos puderam ouvir a frase que agora morava no ar: "Há lugares onde o agradecimento vira lagoa que miroita."

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Ancião
Pessoa muito velha ou que guarda muita sabedoria na história.
Malícia
Desejo esperto ou astuto que pode ser travesso ou enganador.
Sussurros
Palavras ditas muito baixinho, como um segredo entre amigos.
Respeitosamente
Agir com cuidado e educação, mostrando respeito aos outros.
Brisa
Vento leve e suave que faz as folhas se moverem.
Vibração
Pequeno tremor ou movimento que você pode sentir ou ouvir.
Reverência
Ato de mostrar muito respeito, como curvar-se com cuidado.
Lembranças
Coisas guardadas na memória sobre o que aconteceu antes.
Trilha
Caminho pequeno por onde as pessoas ou animais andam.
Taça
Recipiente parecido com um copo usado para oferecer algo especial.

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