Capítulo 1: A História Começa no Sofá
A Leonor tinha dez anos e energia de mola. Saltava do tapete para o sofá como se o chão fosse lava, até a mãe dizer: “Leonor, hoje a lava está de férias.”
Era sábado de Páscoa, e a sala cheirava a bolo de cenoura. Na mesa, havia um cesto com ovos de chocolate embrulhados em papel brilhante, tão coloridos que pareciam pequenos planetas doces.
A avó Rosa chegou com o casaco ainda meio aberto e um sorriso de quem traz segredos no bolso.
“Avó! Hoje vais contar uma história de Páscoa, não vais?”
“Vou, sim. Mas atenção: esta história tem coelhos muito sérios e chocolates com ideias próprias.”
Leonor sentou-se logo, pernas cruzadas, olhos atentos. A avó pousou o cesto no centro da mesa como quem coloca um tesouro num mapa.
“Então, escuta bem. Há histórias que entram pelos ouvidos e vão diretas ao coração. E há outras… que fazem cócegas no nariz.”
Leonor riu. “Quero essa.”
Lá fora, o sol parecia ter lavado a cara, e as árvores tinham folhas novas como páginas acabadas de abrir. A avó começou a falar, e a sala ficou mais calma, como se até o relógio quisesse ouvir.
Capítulo 2: O Ovo que Piscou o Olho
“Na minha história,” disse a avó, “há uma menina chamada… Leonor.”
“Eu?” Leonor apontou para si. “Isso é batota!”
“É magia, minha querida. E a magia não pede licença.”
A avó contou que, numa véspera de Páscoa, a Leonor da história recebeu um ovo de chocolate especial. Não era o maior, nem o mais caro. Era o que tinha o papel mais brilhante, com risquinhos dourados que pareciam desenhados por um raio de sol.
“E sabes o que aconteceu quando ela o pegou?”
Leonor aproximou-se. “Derreteu?”
“Não. Piscou o olho.”
“Os ovos não têm olhos!”
“Ai não? Depende do dia,” respondeu a avó, com um ar muito sério, o que fez a Leonor rir outra vez.
Na mesa da sala, um dos ovos do cesto pareceu mexer-se só um bocadinho. Leonor parou de rir.
“Avó…”
“Sim?”
“Acho que… aquele ovo…”
O ovo ficou quieto, como se estivesse a fazer-se de inocente.
A avó continuou: “A menina da história ouviu um ‘psst!' bem baixinho. Vinha do ovo.”
Leonor levantou uma sobrancelha, como detetive. “E o que é que ele disse?”
A avó sussurrou: “Disse que a Páscoa tinha perdido uma coisa muito importante: a Gargalhada Dourada.”
Leonor tapou a boca para não rir alto. “Isso existe?”
“Claro! Sem gargalhadas, a Páscoa fica só com metade das cores.”
Capítulo 3: Caça às Cores no Jardim
A avó descreveu a menina a correr para o jardim com o ovo na mão, como se carregasse uma lanterna secreta. No jardim, havia fitas penduradas numa árvore, raminhos com flores pequeninas e um vento leve a empurrar cheiros de relva cortada.
“A menina viu pegadas,” disse a avó. “Pegadas de coelho, mas… ao contrário.”
“Coelhos a andar de marcha-atrás?” Leonor gargalhou.
“A Páscoa tem destas coisas,” respondeu a avó, piscando também um olho.
A Leonor da história seguiu as pegadas até ao canteiro das tulipas. E ali encontrou uma pista: um botão de flor com um laço cor-de-rosa e uma etiqueta a dizer: “Devolve a gargalhada ou o chocolate fica com cócegas.”
“Chocolate com cócegas?” Leonor perguntou, já imaginando um ovo a rir-se sozinho e a fugir pelo corredor.
“Acredita, é difícil apanhar um chocolate que se contorce,” disse a avó.
Na história, um coelhinho apareceu, muito branco e muito elegante, com uma gravata minúscula. Tinha ar de quem organizava filas e horários.
“Sou o Coelho Encarregado,” anunciou ele. “E estou atrasadíssimo!”
“Para quê?” perguntou a menina.
“Para distribuir alegria. Mas sem a Gargalhada Dourada, as pessoas só dizem ‘obrigado' com voz de sopa fria.”
Leonor fez uma cara séria, depois não aguentou e desatou a rir. “Voz de sopa fria!”
A avó sorriu: “Vês? Já estás a ajudar.”
O coelho da história explicou que a Gargalhada Dourada se escondia onde as cores eram mais vivas. E, de repente, as tulipas pareceram acender-se, como lâmpadas de primavera, indicando o caminho.
Capítulo 4: O Segredo do Sininho de Chocolate
A avó baixou a voz, como quem abre uma porta misteriosa. “A menina chegou ao sítio mais colorido do jardim: uma casinha de madeira, pintada com bolinhas verdes e laranjas, que antes não estava lá.”
“Uma casa que aparece do nada?” Leonor perguntou, encantada.
“Aparece quando alguém acredita o suficiente,” respondeu a avó.
Na porta havia um sininho. Só que não era de metal. Era de chocolate! E tinha uma nota colada: “Toca com cuidado. Este sininho derrete com elogios.”
Leonor arregalou os olhos. “Com elogios?”
“Sim. Se disseres ‘que sininho bonito', ele fica todo derretido de vergonha.”
Na história, a menina tocou ao de leve. O sininho fez “trlim!” e, em vez de som, soltou uma nuvem de confetis que cheirava a cacau. Do confeti saiu um riso fininho, como o de um passarinho a contar piadas.
Lá dentro, numa prateleira, estava a Gargalhada Dourada: um frasquinho com luz amarela, a borbulhar.
Mas havia um problema. Um gato malhado, com bigodes muito compridos, estava sentado à frente do frasco, como guarda de castelo.
“Só passa quem me fizer rir,” disse o gato, com ar importante. “E eu sou muito difícil.”
A menina tentou uma careta. Nada. Tentou uma piada sobre cenouras. Nada.
Então lembrou-se de uma coisa simples: começou a contar o que via, mas ao contrário.
“Este gato não é um gato, é uma torradeira com bigodes!”
O gato fez “hm”.
“E esta prateleira não é uma prateleira, é uma pista de dança para bolachas!”
O gato abanou a cauda.
“E eu não sou eu, sou um ovo de Páscoa com pernas!”
O gato explodiu numa gargalhada tão grande que quase caiu da prateleira. “Isso foi ridículo! Ridículo no melhor sentido!”
A menina apanhou o frasco e sentiu-o quente nas mãos, como sol engarrafado. O ovo de chocolate na sua mão — sim, aquele ovo — voltou a piscar, orgulhoso.
Capítulo 5: A Páscoa Acende-se e o Sonho de Primavera
A avó contou que, quando a Gargalhada Dourada foi devolvida, o jardim ficou ainda mais vivo. As sombras tornaram-se suaves, as flores pareciam sorrir, e até o Coelho Encarregado deixou cair a gravata de tanto rir.
“Pronto!” gritou ele. “Agora sim, a Páscoa está completa!”
A menina abriu o frasco com cuidado, e a gargalhada saiu em fios dourados, a entrar pelas janelas das casas, a fazer cócegas nos narizes, a saltar para dentro das cozinhas e a transformar “obrigado” em “obrigadoooo!” com alegria.
O gato malhado, já menos sério, deu uma volta e declarou: “A partir de hoje, exijo mais humor e menos cara fechada.”
A avó parou um instante e olhou para a Leonor verdadeira, a do sofá.
“E sabes o que a menina fez no fim?”
Leonor encolheu os ombros, sorridente. “Comeu o ovo?”
“Comeu um pedacinho,” disse a avó. “Mas antes… partilhou. Porque a gargalhada, quando fica só para uma pessoa, encolhe. Quando se partilha, cresce.”
Leonor pegou num ovo do cesto e ofereceu à avó. “Então toma. Para a tua coleção de gargalhadas.”
A avó aceitou, com um ar teatral. “Obrigadaaaa!”
Mais tarde, já com a casa a cheirar a chocolate e a primavera a espreitar pela janela, Leonor deitou-se. O silêncio do quarto era macio.
Fechou os olhos e, no meio do sono, viu um campo cheio de flores que brilhavam como papel de embrulho. Coelhinhos de gravata dançavam em roda, ovos coloridos rolavam sem partir, e um sininho de chocolate tocava sem derreter, só a rir-se baixinho.
No sonho, a Gargalhada Dourada voou até ela e pousou-lhe na ponta do nariz. Leonor espirrou uma risada — “atchim-ha-ha!” — e a primavera inteira pareceu responder com um brilho novo.