Capítulo 1: Uma Fada Diferente
Numa floresta cheia de risos e cores, muito além das montanhas azuis, vivia uma fada chamada Tita Pipoca. Tita era pequena, rechonchuda e tinha cabelos cor-de-rosa espetados para todos os lados, como se tivesse levado um susto. As suas asas pareciam pétalas brilhantes de tulipa, só que nunca paravam de brilhar, nem quando era para dormir.
Tita não era uma fada como as outras. As suas mágicas sempre acabavam... diferentes. Uma vez, tentou transformar uma pedra em maçã, mas virou um sapato que saltitava sozinho. Outra vez, quis fazer chover pétalas de rosa, mas acabou chovendo risos: toda a floresta ficou horas a rir sem parar. Era impossível não adorar Tita Pipoca. Só que, claro, todos achavam que era melhor guardar uma certa distância quando ela estava com a varinha na mão.
Naquela manhã, Tita estava a pentear as suas asas (ela adorava penteá-las, mesmo sabendo que voltavam sempre a despentear-se) quando ouviu um choro baixinho. Era como o piar de um passarinho gripado.
Tita espreitou por entre as flores gigantes e viu Dodó, o duende mais chorão da floresta. Dodó estava sentado em cima de uma folha de alface que parecia mal-humorada, porque encolhia sempre que ele se mexia.
— Oh, Dodó! — disse Tita, a saltitar até ele. — O que se passa? Perdes-te as tuas pantufas voadoras outra vez?
Dodó limpou o nariz com uma pétala (que depois voou sozinha, para ele não a usar duas vezes) e respondeu:
— Não... Desta vez é pior! A minha risada desapareceu! Não consigo rir!
Os olhos grandes de Tita brilharam de susto.
— Oh não! Uma floresta sem o riso do Dodó é como um bolo sem cobertura! Não te preocupes, Dodó. Eu, Tita Pipoca, prometo que vou encontrar a tua risada custe o que custar! — e, de repente, tropeçou numa raiz de árvore — Bem, custe o que custar... menos se custar o meu último doce de framboesa.
Dodó tentou sorrir, mas só se ouviu um “piiii” baixinho, como um sapo tímido. A missão estava lançada: Tita Pipoca ia procurar a risada perdida de Dodó.
Capítulo 2: No Mercado das Maravilhas
Antes de partir, Tita foi buscar a sua mochila mágica (que era, na verdade, uma concha gigante) e colocou ali dentro três trufas de chocolate, um guarda-chuva com bolinhas amarelas, o livro “Feitiços para quem se esquece das palavras”, e um apito de pirilampo, caso precisasse de chamar reforços luminosos.
Com o sol a dançar entre as folhas, Tita voou até ao Mercado das Maravilhas, o lugar mais caótico e engraçado da floresta. Lá, os esquilos vendiam gelados que nunca derretiam, as corujas ofereciam conselhos engraçados e as formigas tinham um stand onde faziam trancinhas na barba de quem quisesse (até mesmo nos sapos!).
Assim que chegou, Tita foi recebida por Maricota, a coruja de óculos grossos.
— Tita! Precisas de um conselho ou de um penteado?
— Nem uma coisa nem outra, Maricota. Preciso da risada do Dodó! Perdeu-se por aí!
Maricota abriu os olhos ainda mais (o que parecia impossível) e disse:
— Nessas coisas, eu não sei, mas o Sr. Coelho Gaiteiro tem um carrinho de risadas! Ele diz que coleciona sorrisos. Vai até ali, à banca das cenouras dançantes!
Tita agradeceu e voou para o outro lado do mercado, esquivando-se das borboletas que vendiam pulseiras de luz.
O Sr. Coelho Gaiteiro era todo branco, com laço azul e uma pochete cheia de confetes. Ele tocava gaita e, a cada nota, saíam bolinhas de sabão coloridas.
— Olá, Tita Pipoca! Queres comprar um sorriso? Tenho gargalhadas, risinhos, e até risadas de nariz entupido!
Tita explicou o problema do Dodó.
— Hum, risada de duende é rara, menina. Mas ontem, uma risada pulou daqui e fugiu para o Bosque das Mantas Voadoras...
Tita agradeceu, pagando com um dos seus chocolates mágicos (que o Sr. Coelho comeu e, de repente, ficou com bigodes cor-de-laranja) e foi a voar para o tal bosque.
No caminho, encontrou Zizi, a lagartixa que gostava de cantar blues na chuva. Tita explicou a missão. Zizi, entre uns acordes desafinados, disse:
— Vai com cuidado, Tita! O bosque está cheio de mantas que gostam de fazer cócegas em quem passa!
Tita deu uma gargalhada só de imaginar as mantas fofinhas a correr atrás dela.
— Obrigada por avisar, Zizi! Se eu voltar a rir tanto que quase expludo, a culpa é tua!
E lá foi Tita, decidida a não desistir da risada do Dodó, nem que tivesse de fazer cócegas a todas as mantas da floresta.
Capítulo 3: As Mantas de Cócegas
O Bosque das Mantas Voadoras era mesmo diferente. Não tinha árvores altas, só montinhos fofos de mantas coloridas que flutuavam como nuvens cor-de-rosa e azul pelo ar. Quando uma manta passava por Tita, fazia-lhe cócegas nos pés. Tita só não desatou a rir, porque lembrou-se de que tinha uma missão! (Mas deu um mini-sorriso, só para não perder o costume.)
— Risada de duende, onde estás? — gritou Tita, com a sua voz animada. — Prometo que levo-te de volta para Dodó, e ainda ganhas um chocolate!
Uma manta amarela ouviu e desceu flutuando, como uma folha preguiçosa.
— Estás à procura de uma risada? — perguntou a manta, com uma voz macia. — Acho que vi uma risadinha saltitante a fazer cócegas num esquilo. Foi para perto do rio!
— Obrigada, dona manta fofinha! — disse Tita, fazendo-lhe uma festa (e levando outra dose de cócegas).
Voou até ao rio saltitante, onde as pedras gostavam de saltar de uma margem para a outra só para assustar os peixes. Lá, encontrou um grupo de sapos a jogar cartas.
— Viram uma risada a passar por aqui? — perguntou Tita.
O maior dos sapos, chamado Sapo-Chiclé, respondeu:
— Vimos sim! Ela estava a dar voltas na água, parecia um peixinho saltador! Depois fugiu para a ponte dos caracóis.
Tita agradeceu, mas antes de partir, escorregou numa pedra-sabonete e caiu sentada dentro dum nenúfar. Os sapos riram tanto que Tita começou a rir também. Por um momento, esqueceu-se da missão e ficou a brincar com eles, pulando de nenúfar em nenúfar. Mas logo lembrou-se do Dodó, e a sua risada “piiii”.
— Não posso perder tempo! — disse, despedindo-se dos amigos saltitantes.
Voou até à ponte dos caracóis. Os caracóis faziam fila para atravessar, uns em cima dos outros, como um comboio muito lento. Tita perguntou pela risada perdida.
— Sim, sim — disse o caracol-motorista —, passou por aqui a saltitar! Deve estar agora na Aldeia dos Chapéus Malucos!
Tita agradeceu, mas antes de ir, quis experimentar o “comboio dos caracóis”. Sentou-se em cima de um caracol gigante, que começou a andar devagarinho, devagarinho... Tita quase adormeceu!
Quando chegou à outra margem, os chapéus malucos estavam mesmo lá, a fazer piruetas no ar. Cada um com uma cor e um padrão diferente: bolinhas, riscas, estrelas e até tortinhas de morango estampadas!
Capítulo 4: O Grande Espetáculo do Riso
Na Aldeia dos Chapéus Malucos, tudo era engraçado. As casas eram feitas de gelatina, os bancos saltavam de um lado para o outro e as árvores usavam óculos escuros. Tita procurou pelo chapéu mais alto, achando que lá teria melhor vista.
— Senhor Chapéu Rei! — chamou. — Ando à procura da risada do Dodó! Alguém viu passar por aqui uma risada traquina?
O Chapéu Rei girou três vezes no ar e respondeu:
— Uma risada saltitante passou por cá! Juntou-se ao concurso de piadas do Papagaio Ernesto. Está ali no palco, a preparar-se para atuar!
Tita correu até o palco feito de tapetes voadores. Um grande público esperava pelas piadas do Papagaio Ernesto, o maior contador de anedotas da floresta. Mas, em vez de Ernesto, quem estava no palco era uma pequenina risada, aos pinotes e com brilhinhos dourados.
— És tu, risada do Dodó? — perguntou Tita.
A risada respondeu com um “hihihi” baixinho e saltou para o ombro de Tita.
Papagaio Ernesto apareceu, usando óculos gigantes.
— Podes levar a risada, Tita. Mas antes, tens de provar que és mesmo a fada mais engraçada desta floresta! Contas-nos uma piada?
Tita ficou pensativa. Depois, subiu ao palco e disse bem alto:
— O que é que uma fada diz à outra fada quando se encontram no espelho?
O público ficou em silêncio.
— “És uma fada espantosa! Mas... os teus cabelos estão ainda mais despenteados que os meus!”
Todos começaram a rir: a risada do Dodó riu, os chapéus riram, até as árvores de óculos escuros abanaram-se a rir.
Papagaio Ernesto aplaudiu com as asas:
— Muito bem, Tita! Podes levar a risada de volta para Dodó!
Feliz, Tita guardou a risada dentro de uma caixinha de piadas e despediu-se de toda a aldeia, que lhe atirou confetis e caramelos.
Voou a toda a velocidade para o bosque, fazendo loopings no ar e cantando bem alto.
Capítulo 5: O Regresso da Risada
Quando Tita chegou ao lugar de Dodó, encontrou-o ainda desanimado em cima da folha de alface, que agora estava mais encolhida do que nunca.
— Dodó! Traz-me a tua boca! — gritou Tita.
Dodó, confuso, abriu a boca. Tita abriu a caixinha de piadas e a risada pulou de lá para dentro da barriga do Dodó, que deu logo uma gargalhada tão forte que quase caiu da folha.
— HAHAHAHAHA! — gritou Dodó, dando saltinhos — Voltou! Voltei a rir, Tita! Como posso agradecer?
Tita pensou um bocadinho e disse:
— Da próxima vez que eu fizer um feitiço atrapalhado, prometes não rir de mim... muito?
Dodó piscou o olho e respondeu:
— Só se eu não conseguir mesmo segurar o riso!
As criaturas da floresta juntaram-se ao redor e fizeram uma festa. Havia bolos mágicos, gelados irrequietos e até as mantas fofinhas vieram dar cócegas a quem quisesse. O Sapo-Chiclé trouxe sapatos saltitantes para todos, Papagaio Ernesto contou piadas até a própria risada pedir descanso, e os caracóis fizeram corridas de velocidade (ganharam todos, porque ninguém percebeu quem chegou primeiro...).
E assim, com o coração cheio de alegria e um sorriso de orelha a orelha, Tita Pipoca percebeu que, mesmo que as suas mágicas fossem estranhas, poder ajudar um amigo valia mais do que todos os feitiços perfeitos do mundo.
E, por falar em risos, dizem que a floresta nunca riu tanto como naquele dia em que uma fada maluca devolveu uma risada perdida e todos descobriram que, juntos, a alegria é ainda mais mágica.