Carregando...
Ficção científica-fantástica 9 a 10 anos Leitura 24 min.

A canção que une as ilhas do céu

Tomás e os seus amigos partem da Halle de Ressonância para consertar a Ponte‑Mãe que liga as ilhotas do céu, enfrentando criaturas que roubam o som e aprendendo que música, coragem e diálogo podem restaurar ligações entre as pessoas.

Baixar esta história em PDF

Ideal para compartilhar ou imprimir esta história!

Baixar o e-book (.epub)

Leia esta história no seu leitor de e-books.

Um menino de 10 anos, Tomás, rosto redondo, cabelos castanhos despenteados, olhos brilhando de maravilha e determinação, segura um pequeno objeto redondo que emite um brilho quente (Núcleo de Eco) e canta baixinho, de pé no centro de um telhado metálico; uma menina de ~9 anos, Lila, com tranças castanhas e sorriso travesso, segura uma chave fina de prata (Chave de Frequência) e marca um ritmo numa antena à sua direita, ligeiramente agachada; um garoto de ~11 anos, Nuno, cabelo preto e olhar concentrado, segura um caderno de notas aberto e fixa um cabo azul brilhante (Cabo-luz) perto de um arco de metal à esquerda; atrás de Tomás, uma criatura Rouba‑Som feita de placas metálicas escuras e olhos como botões apagados observa, emitindo pequenas notas musicais luminosas; o cenário é um telhado de oficina steampunk entre ilhotas flutuantes com pranchas e antenas de cobre, engrenagens expostas e um céu crepuscular salpicado de ilhas luminosas, enquanto as crianças tocam uma melodia coletiva que repara uma grande passarela de luz, com fios de luz se esticando e fissuras se fechando sob arcos musicais, atmosfera de esperança e magia científica em paleta aquarelada com reflexos dourados e tons azul‑púrpura. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — A Halle de Ressonância

O céu não era um teto: era um mar brilhante, cheio de ilhotas a flutuar como barcos quietos. Entre elas estendiam-se pontes invisíveis para quase toda a gente… quase. Para atravessar de verdade, era preciso alguém que convencesse o ar a segurar.

Tomás tinha nove anos e uma coragem do tamanho de uma mochila cheia de bolachas. Era pequeno, mas a sua voz parecia saber caminhos. Quando falava com cuidado — e com a palavra certa — as coisas ouviam.

A Halle de Ressonância era o lugar onde ele treinava. Parecia uma catedral feita de metal e eco, com arcos de bronze e colunas de ferro que brilhavam como chuva parada. No chão, placas de prata desenhavam círculos e linhas, como se alguém tivesse começado um jogo de ligar pontos e nunca mais tivesse parado.

Ali dentro, os metais respondiam. Um passo, e o cobre soltava um som grave. Uma risada, e o estanho tremia como um sino envergonhado. Um segredo sussurrado, e o alumínio fazia um “tin-tin” como quem presta atenção.

Tomás passou a mão numa barra de aço pendurada por fios finíssimos. A barra vibrou, e o ar vibrou com ela.

— Vamos lá — disse ele, firme. — Ponte, acorda.

No vazio à frente, sobre o abismo de nuvens, fios de luz azulada apareceram, como cordas de harpa. Cada palavra de Tomás apertava um pouco mais essas cordas no lugar.

O Mestre Uriel, que tinha barba de arame e olhos que pareciam lâmpadas antigas, observava com os braços cruzados.

— Persuadir não é mandar — lembrou ele. — É negociar com o mundo.

— Eu sei — respondeu Tomás. — Eu peço com jeito.

— Então pede também para os outros aprenderem contigo — disse o mestre. — A Halle não é só tua.

Tomás olhou para os aprendizes mais novos, que espreitavam atrás de uma coluna. Eram dois: Lila, que tinha tranças e um sorriso rápido, e Nuno, que era bom a desenhar mapas mas tinha medo de altura, mesmo vivendo no céu.

— Querem tentar? — perguntou Tomás.

Lila deu um passo à frente como quem entra num palco.

— Eu quero! Se eu cair, pelo menos caio com estilo.

Nuno engoliu em seco.

— Eu… eu fico aqui a tomar notas. Notas importantes. Muito importantes.

Tomás não riu dele. Apenas acenou.

— Serve. Notas também constroem pontes.

Quando Lila estendeu a mão e disse “por favor”, o metal no chão respondeu com um “DÓÓÓ” brilhante, e uma faísca correu pelo círculo de prata. A ponte de luz ficou um pouco mais forte.

Tomás sentiu orgulho. Partilhar era isso: ver alguém brilhar e não querer apagar.

Foi então que a Halle mudou de humor. Um som estranho atravessou as paredes: um “crac” de vidro a partir, só que mais profundo. As colunas tremeram. Os metais, em vez de cantar, gemeram.

No centro da sala, o grande Diapasão Celeste — um instrumento alto como uma árvore, com dois braços de titânio — soltou uma vibração que não era música. Era aviso.

Mestre Uriel empalideceu.

— A Ponte-Mãe… — murmurou. — A que liga as ilhotas principais. Está a falhar.

Lila abriu os olhos.

— Mas… sem a Ponte-Mãe, como é que as pessoas levam comida e peças e livros?

Nuno apertou o caderno contra o peito.

— E como é que eu volto para casa?

Tomás sentiu um frio na barriga, mas não deixou que mandasse nele.

— Então vamos consertá-la — disse. E a própria Halle, como se tivesse ouvido, respondeu com um eco: “conser-tá-la… tá-la… lá…”

Capítulo 2 — O Mapa que Respira

Mestre Uriel conduziu-os até uma mesa de metal escuro, cheia de objetos que pareciam ter saído de um sonho de inventor: engrenagens com runas, fios de luz presos em carretéis, e um relógio que não marcava horas, mas sim direções.

No centro estava o Mapa de Íons e Encantos. Parecia uma folha de cobre finíssima, mas quando Tomás aproximou a mão, o mapa fez “pumf” e soltou um sopro morno, como um animal a acordar.

Linhas apareceram sozinhas, desenhando as ilhotas do céu. Algumas brilhavam. Outras piscavam, como estrelas cansadas.

A Ponte-Mãe estava marcada com uma linha grossa. Só que, agora, essa linha tinha falhas — buracos de silêncio.

— O que está a comê-la? — perguntou Lila.

O mestre tocou com um dedo num ponto escuro.

— Silêncio quebrado. Uma falha de ressonância. É como se alguém tivesse roubado a música que segura a ponte.

Nuno levantou a mão, como na escola.

— Se a ponte é feita de vibrações… então precisa de som certo para ficar firme. Certo?

— Certíssimo — disse Uriel. — E o som certo nasce aqui, na Halle, e viaja pelos cabos de metal até às ilhotas.

Tomás franziu a testa.

— Então alguém cortou os cabos?

— Ou pior — respondeu o mestre. — Alguém ensinou o metal a não ouvir.

Tomás olhou para as colunas, para os arcos. A Halle parecia preocupada, cheia de pequenos tinidos nervosos.

— Eu consigo falar com o metal — disse Tomás. — Se ele não está a ouvir… talvez eu consiga convencê-lo a lembrar.

Uriel colocou nas mãos de Tomás um objeto redondo, do tamanho de uma maçã, com uma fenda no meio.

Núcleo de Eco. Grava uma frase e repete-a como uma canção, mesmo no vento. Leva-o contigo.

Lila pegou numa pequena chave de prata que parecia uma pena.

— E isto?

Chave de Frequência — explicou o mestre. — Abre fechaduras que não são de portas, mas de sons. Útil se encontrares um bloqueio.

Nuno recebeu um rolo de fio finíssimo, que brilhava em azul.

Cabo-luz — disse Uriel. — Para remendar ligações. E… Nuno, as tuas notas vão guiar-nos quando o mapa falhar.

Nuno endireitou-se, um pouco mais alto.

— Então… eu sou importante.

— Muito — disse Tomás. — Sem ti, eu posso convencer o vento, mas não sei onde ele mora.

O mapa soltou outro sopro e mostrou uma nova linha, fina e tremida: um caminho até uma ilhota distante chamada Ferrugem Alta. Ali, segundo o mapa, o silêncio começava.

Uriel respirou fundo.

— Não posso ir convosco. A Halle precisa de mim para manter o resto a funcionar. Mas vocês três… podem.

Tomás sentiu o peso da missão, mas também uma faísca. Era como quando se aprende uma palavra nova e, de repente, ela abre uma porta na cabeça.

— Vamos juntos — disse ele. — E vamos voltar com a música.

Lila fez uma vénia exagerada.

— Que comece a aventura. Prometo não cair… muito.

Nuno fechou o caderno com um “clac” decidido.

— Primeiro apontamento: eu ainda tenho medo, mas vou na mesma.

E assim saíram da Halle de Ressonância, levando consigo tecnologia que parecia magia e magia que parecia tecnologia, rumo ao espaço entre as ilhotas, onde o céu era um caminho.

Capítulo 3 — A Ilhota do Silêncio Quebrado

Atravessar sem a Ponte-Mãe era como caminhar sobre uma música que podia parar a qualquer momento. Tomás falava baixinho, escolhendo palavras como quem escolhe pedras para atravessar um rio.

— Aguenta… só mais um pouco… — dizia ele ao ar.

Fios de luz surgiam sob os pés, trançando-se numa passarela cintilante. Lila seguia atrás, fazendo caretas ao vento para não pensar na altura. Nuno ia no meio, repetindo números e direções como se fossem feitiços:

— Três passos a nordeste… dois a leste… não olhar para baixo… não olhar…

Quando chegaram a Ferrugem Alta, sentiram logo a diferença. A ilhota tinha casas de metal avermelhado e torres de antenas, mas tudo parecia… sem graça. Como se alguém tivesse baixado o volume do mundo.

Um moinho de vento girava, mas não fazia “vuush”. Uma porta batia, mas não fazia “toc”. Até as pessoas falavam com a boca, mas as palavras saíam fracas, como papéis molhados.

No centro da ilhota havia uma praça com um poste de transmissão: um cilindro de ferro com anéis dourados. Esses anéis deviam cantar para enviar a ressonância. Mas estavam parados, cobertos por uma poeira negra.

Lila esticou o dedo e tocou na poeira. A poeira mexeu-se como se estivesse viva.

— Eca. Isto não é poeira. Isto é… antipó?

Nuno aproximou-se, olhos atentos.

— Parece fuligem. Mas… ela come vibração. Olhem: quando eu bato palmas… — ele bateu uma palma. O som morreu no ar, engolido. — Uau. Isso foi triste.

Tomás ajoelhou-se e pôs a mão no metal do poste.

— Olá — disse ele, com doçura. — Lembras-te de cantar?

O metal não respondeu. Era como falar com alguém de fones.

Tomás então pegou no Núcleo de Eco e gravou uma frase simples, clara, como um refrão:

“Partilhar mantém o céu unido.”

O Núcleo repetiu a frase, em volta, como uma roda de crianças a cantar.

“Partilhar mantém o céu unido… unido… unido…”

A fuligem tremeu, irritada. Subiu pelo poste como uma sombra a subir uma parede.

E do meio da sombra apareceu uma criatura feita de placas finas de metal escuro, com olhos como botões apagados: um Rouba-Som, uma coisa que vivia de engolir música e deixar só silêncio.

Lila deu um passo atrás.

— Isso tem cara de quem nunca ouviu uma piada boa.

O Rouba-Som esticou braços longos e tentou cobrir o Núcleo de Eco. Tomás levantou-se, coração a bater como tambor.

Ele não tinha espada. Tinha voz.

— Não queremos lutar — disse Tomás, alto o suficiente para atravessar o medo. — Queremos aprender por que estás aqui.

A criatura parou um segundo, como se a palavra “aprender” tivesse um gosto estranho.

Nuno, tremendo, abriu o caderno e puxou um lápis.

— Observação: o monstro… hesitou.

Lila, rápida, tirou a Chave de Frequência e rodou-a no ar. A chave fez um “triiim” fino, quase invisível, que abriu uma pequena janela de som no meio do silêncio. Ali dentro, os ruídos voltaram um pouco.

Tomás aproximou-se do Rouba-Som, devagar.

— Se estás com fome… não precisamos dar-te silêncio. Podemos dar-te outra coisa. Podemos partilhar música.

O Rouba-Som inclinou a cabeça, como um cão sem entender “senta”.

Tomás então fez algo que nunca tinha tentado: pediu ajuda ao metal da praça.

— Sinos… antenas… placas… emprestem-me um acorde.

Por um instante, a ilhota pareceu lembrar. Um “LÁ” tímido saiu de uma antena. Um “MI” respondeu de uma calha. O “SOL” veio de uma tampa de esgoto que, aparentemente, tinha talento escondido.

Tomás juntou tudo com a voz, como quem junta peças de um puzzle. A música ficou pequena, mas verdadeira.

A fuligem recuou. O Rouba-Som estremeceu… e, em vez de atacar, encostou-se ao poste, como se estivesse cansado.

Uma voz fraca saiu dele, como um rádio com bateria baixa:

— Eu… fui… feito… para… calar… o medo…

Tomás arregalou os olhos.

— Alguém te fez?

A criatura assentiu, quase sem força.

Lila cruzou os braços.

— Quem é que decide que silêncio é solução? Isso é tão… chato.

Nuno folheou o caderno.

— Se foi feito… então há um lugar onde fazem.

O mapa, no bolso de Tomás, esquentou. Ele tirou-o. Uma nova marca surgiu: um laboratório antigo numa ilhota chamada Oficina do Zénite.

Tomás respirou fundo.

— Vamos lá. E… vamos levar-te também, se quiseres.

O Rouba-Som olhou para a música pequena que ainda girava no ar.

— …quero… aprender… a ouvir.

E, com cuidado, como quem adopta um bichinho muito estranho, eles seguiram para a próxima ilhota — com um monstro arrependido e uma ideia nova: nem tudo o que assusta quer ser inimigo.

Capítulo 4 — A Oficina do Zénite

A Oficina do Zénite flutuava mais alto que as outras, perto de uma zona onde as nuvens eram tão finas que pareciam vidro. A ilhota tinha chaminés, cúpulas e rodas gigantes que giravam sozinhas, movidas por feitiços e motores ao mesmo tempo.

Logo à entrada, uma porta de latão barrava o caminho. Não tinha maçaneta. Tinha um ouvido desenhado.

Lila aproximou a Chave de Frequência e fez um “triiim” mais forte. A porta vibrou.

— Palavra-passe — disse uma voz metálica.

Tomás olhou para Nuno.

— Tens alguma ideia?

Nuno folheou as notas com dedos apressados.

— A fuligem comia vibração. O posto precisava de cantar. E o Núcleo disse: “Partilhar mantém o céu unido.” Talvez… a palavra seja “partilhar”.

Tomás falou para o ouvido desenhado:

— Partilhar.

A porta abriu com um suspiro contente, como se dissesse “finalmente alguém educado”.

Lá dentro, corredores brilhavam com tubos de luz. Frascos com poeira negra estavam alinhados como doces proibidos. Havia desenhos de pontes no teto, e no chão, trilhos por onde carrinhos sem rodas deslizavam em silêncio.

No centro da oficina, uma máquina enorme parecia um órgão de igreja misturado com um computador antigo: teclas de cristal, pistões de ferro, e um coração de quartzo a pulsar.

Ao lado da máquina estava uma figura alta, de capa cinzenta, com máscara espelhada. Falava com voz calma demais.

— Chegaram cedo — disse a figura. — Os meus Rouba-Sons já deviam ter silenciado metade do céu.

Lila pôs as mãos na cintura.

— Pois, azar. Encontrámos um que decidiu ter sentimentos.

O Rouba-Som, atrás deles, encolheu-se, como se ficasse vermelho… se sombras ficassem vermelhas.

Tomás deu um passo à frente.

— Porque estás a fazer isto? As pessoas precisam das pontes.

A figura inclinou a cabeça.

— Pontes trazem barulho. Barulho traz discussões. Discussões trazem guerra. Eu trago silêncio. O silêncio é ordem.

Nuno, mesmo com as pernas a tremer, levantou o caderno.

— Mas sem som não há avisos, nem histórias, nem… aprendizagem. Nem risos.

Tomás sentiu a palavra “aprendizagem” bater dentro dele como um sino forte. Foi aí que percebeu: convencer não era só pedir ao metal. Era falar com pessoas… até com as erradas.

— Estás a tentar proteger — disse Tomás. — Mas estás a tirar a melhor parte: quando a gente partilha, a gente melhora. A gente aprende com o outro. E até briga pode virar conversa, se houver música no meio.

A figura ficou imóvel.

— Música não impede a dor.

— Não — concordou Tomás. — Mas ajuda a atravessar.

Lila aproximou-se dos frascos de fuligem, bem devagar.

— E além disso — disse ela, com um sorriso malandro — silêncio total é péssimo para contar segredos. Fica tudo demasiado óbvio.

A figura virou-se um pouco, distraída por um segundo. Foi o que precisavam.

Nuno puxou o Cabo-luz e apontou para a máquina.

— Tomás! Se ligarmos isto ao coração de quartzo… talvez possamos inverter a frequência. Fazer a máquina devolver o som em vez de roubar.

Tomás assentiu.

— Eu seguro a atenção dele.

Ele elevou o Núcleo de Eco, que continuava a repetir: “Partilhar mantém o céu unido.”

A figura avançou, irritada.

— Cala-te!

Tomás não recuou.

— Não vou calar. Porque se eu calo, alguém fica sozinho numa ilhota sem comida e sem livros. E isso não é ordem. É abandono.

Enquanto Tomás falava, Lila correu como uma faísca. Enfiou a Chave de Frequência numa ranhura na base da máquina. “Trank!” — abriu-se uma tampa escondida. Nuno, com mãos rápidas, ligou o Cabo-luz ao quartzo pulsante.

A máquina deu um solavanco. Um som preso, acumulado, começou a roncar lá dentro, como um trovão dentro de uma caixa.

A figura gritou e tentou desligar, mas o Rouba-Som deu um passo à frente — sim, o monstro — e colocou-se entre a figura e a máquina. Não atacou. Apenas… ficou ali, firme, como quem escolhe um lado.

A máquina então libertou uma onda de ressonância. Não era explosão; era como se o mundo lembrasse uma canção antiga. Os tubos de luz acenderam mais forte. As engrenagens cantaram.

A fuligem nos frascos dissolveu-se em pó comum, inofensivo, como se tivesse perdido a vontade de morder o som.

A figura de máscara cambaleou, como se o silêncio dentro dela tivesse sido empurrado para fora.

— O que… fizeste…? — murmurou.

Tomás baixou o Núcleo de Eco.

— Não destruímos a tua máquina — disse ele. — Nós ensinámos a tua criação a ouvir outra coisa.

O Rouba-Som virou-se para Tomás e, com voz mais clara agora, disse:

— …obrigado.

Lila soltou o ar.

— Uf. E eu que achei que hoje ia morrer sem terminar o meu dever de matemática. Que tragédia evitada.

Nuno riu, pequeno e verdadeiro.

— Segunda observação: humor ajuda na coragem.

Mas ainda faltava o mais importante: devolver a música à Ponte-Mãe.

Capítulo 5 — A Canção que Liga as Ilhotas

Com a máquina invertida, a Oficina do Zénite transformou-se num farol de som. Só que a ressonância precisava de chegar à Ponte-Mãe, espalhada pelo céu como uma linha gigante.

Tomás abriu o mapa. A linha da ponte ainda tinha falhas, mas agora parecia pronta para ser remendada, como tecido à espera de agulha.

— Temos de enviar uma canção contínua — disse Nuno. — Como um cabo invisível, só que feito de ritmo.

Lila apontou para as antenas do telhado.

— Então vamos fazer um concerto no topo do mundo?

Tomás sorriu.

— Vamos fazer um concerto que é também uma aula. Para o metal… e para nós.

Subiram ao telhado da oficina. O vento ali era mais rápido, e cheirava a gelo e a eletricidade. Ao longe, viam-se dezenas de ilhotas: algumas com campos, outras com bibliotecas, outras com mercados. Pessoas saíam à rua, olhando para cima, sentindo que algo estava a mudar.

Tomás colocou o Núcleo de Eco no centro, sobre uma placa de cobre. Lila ajustou a Chave de Frequência, transformando-a num pequeno diapasão que vibrava afinado. Nuno prendeu o Cabo-luz entre duas antenas, criando um arco brilhante.

O Rouba-Som ficou ao lado, quieto, como um aluno na primeira fila.

Tomás fechou os olhos e lembrou-se da Halle de Ressonância, de como os metais respondiam quando eram tratados com respeito. Lembrou-se também do que o mestre dissera: persuadir é negociar com o mundo.

Ele começou com palavras simples, para que o vento entendesse:

— Metais do céu, vocês seguram caminhos. Vocês guardam passos e risos e entregas de pão. Hoje, precisamos de vocês. Vamos partilhar esta música para ninguém ficar preso.

A placa de cobre respondeu com um som quente. As antenas responderam com um brilho. O Cabo-luz cantou baixo, como corda de violino.

Lila entrou com um ritmo batendo de leve com os nós dos dedos no metal: “tum-tum, tá”. Nuno, que dizia não ter jeito, começou a marcar as notas lendo as próprias anotações, como se fossem partitura.

E o Rouba-Som… abriu os braços e fez algo inesperado: devolveu o silêncio que tinha guardado, mas devolveu-o em pedaços pequenos, como pausas certas entre as notas. A música ficou melhor. Mais bonita. Até o silêncio, quando partilhado, podia ajudar.

A canção subiu e espalhou-se pelo céu. A Ponte-Mãe, lá longe, acendeu-se como uma estrada de estrelas. As falhas fecharam-se com luz. O som viajou por cabos e arcos, e as ilhotas sentiram-se puxadas umas às outras, não por força, mas por harmonia.

Nas ruas, as pessoas aplaudiram. Um padeiro ergueu um cesto. Uma bibliotecária levantou um livro. Crianças começaram a saltar, testando o eco com gargalhadas.

Tomás abriu os olhos e viu, no horizonte, a Halle de Ressonância a brilhar como um coração a bater.

A figura de máscara, lá em baixo, olhava para cima em silêncio. Depois tirou a máscara, revelando um rosto cansado.

— Eu… esqueci-me do que era ouvir sem medo — disse, quase num sussurro.

Tomás desceu até ela, com cuidado.

— Podes aprender de novo — respondeu. — Toda a gente pode. Mas não sozinho. Com outros.

A figura assentiu, devagar.

Quando voltaram à Halle, Mestre Uriel esperava-os à entrada. Os metais cantavam, felizes, como se estivessem a contar novidades.

— Ouvi a Ponte-Mãe — disse o mestre. — Soou… mais forte do que antes.

Tomás olhou para Lila e Nuno.

— Porque não foi só consertada — disse ele. — Foi partilhada.

Nuno abriu o caderno na última página e escreveu, com letra grande: “Aprender é ligar.”

Lila bocejou e sorriu.

— E também é não cair. Hoje, nota dez.

O Rouba-Som, agora menos sombra e mais metal brilhante, fez um pequeno “tin” contente. Como um sino que finalmente encontrou a sua canção.

E Tomás, o menino persuasivo que ligava ilhotas celestes, percebeu que a maior ponte não era feita apenas de luz ou de metal: era feita de vozes juntas, de mãos que ajudam, e de ideias passadas de um para o outro — como música no ar.

Sem publicidade 3 € por mês

Deseja uma leitura sem interrupções? Apoie Oh My Tales, remova todos os anúncios e aproveite outras vantagens incluídas a partir de 3€ por mês.

Veja os planos e tarifas
Compartilhar

reportar um problema com esta história

O que você achou desta história?

Dê sua opinião atribuindo uma nota a esta história com base no que você e/ou seu filho acharam. Obrigado antecipadamente!

Obrigado! Sua nota foi levada em conta!

O quiz: você entendeu bem a história?

Ressonância
Quando um som se espalha e faz outras coisas vibrarem junto.
Vibração
Movimento rápido e pequenino que faz som ou tremor.
Fuligem
Pó escuro que sai de fogo e suja superfícies.
Diapasão Celeste
Um grande instrumento em forma de U que produz sons fortes.
Núcleo de Eco
Objeto que grava uma frase e repete como se fosse canção.
Chave de Frequência
Pequena ferramenta que abre sons e desbloqueia ruídos.
Cabo-luz
Fio brilhante usado para ligar e remendar conexões de som.
Engrenagens
Rodas dentadas que se encaixam e fazem máquinas moverem-se.
Quartzo
Pedra que pode vibrar e ajudar a controlar sons na máquina.
Transmissão
A ação de enviar som ou sinais de um lugar para outro.

Crie uma história mágica e única para o seu filho!

Crie em poucos minutos uma aventura personalizada onde seu filho se torna o herói. Com nossa ferramenta exclusiva, é fácil, gratuito e divertido!

Criar uma história

Baixe esta história:

Baixar esta história em PDF Baixar o e-book (.epub)

Receba novas histórias todos os domingos à noite!

Receba 7 histórias emocionantes e cativantes, adaptadas à idade e aos gostos do seu filho, todo domingo às 17h*. É grátis e garantido sem spam!
*E-mail enviado às 16h00, hora de Lisboa.
Nós também não gostamos de spam. Assim, nós só lhe enviaremos histórias. Você poderá se descadastrar quando desejar.