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Conto de aventura 5 a 6 anos Leitura 17 min.

A bússola de luz e o Lago-espelho

Três amigas entram num bosque mágico para ajudar Lia a encontrar uma lembrança perdida, enfrentando provas e aprendendo valores como respeito, coragem e curiosidade enquanto seguem pistas até o misterioso Lago-espelho.

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Há três meninas: Lia, 6 anos, cabelo castanho médio em trança solta, vestido amarelo-claro com manchas de pólen, ajoelhada à beira do lago olhando o reflexo e segurando um saquinho de sementes dourado; Clara, 6 anos, cabelo loiro curto, óculos redondos, jaqueta azul e lupa ao pescoço, sentada ligeiramente atrás e à esquerda de Lia com um caderno azul aberto; Joana, 6 anos, cabelo preto em rabo de cavalo, jardineira verde, mãos na cintura, em pé à direita de Lia com um biscoito pela metade. O cenário é um lago calmo como um espelho cercado por ervas altas, samambaias e bancos cobertos de musgo, alguns nenúfares e um pequeno cervo ao fundo perto de um arvoredo, luz dourada de fim de tarde filtrando pelas folhas. As três descobrem um pequeno caixote de madeira na margem; Lia abre-o cuidadosamente enquanto Clara e Joana observam surpresas e alegres. A atmosfera é suave, mágica e serena, com paleta aquarelada de amarelos, verdes suaves e azuis pálidos, traços delicados e contornos levemente desfocados. reportar um problema com esta imagem

Parte 1: A lembrança que brilhou como uma estrela

Lia, Clara e Joana tinham mais ou menos seis anos e andavam sempre juntas, como três passarinhas curiosas no mesmo galho. Moravam perto de um bosque onde as folhas faziam barulhinhos de segredo quando o vento passava.

Numa tarde cor de mel, Lia ficou parada no caminho, com a testa franzida.

— Está tudo bem? — perguntou Clara, apertando a mão da amiga.

Lia respirou fundo, como quem tenta puxar uma nuvem para dentro do peito.

— Eu… eu perdi uma lembrança — disse ela, baixinho. — Eu sei que ela existe, mas não consigo ver direitinho. É como um cheiro de bolo que foge.

Joana arregalou os olhos, que brilhavam como duas bolinhas de gude.

— Lembrança perdida? Onde foi que você deixou?

— Não sei. Só sei que era uma coisa boa. Eu lembro de rir… e tinha luz… e água cantando — explicou Lia. — Minha avó dizia que as lembranças são sementes. Se a gente cuida, elas crescem.

Clara, que gostava de pensar com calma, como uma tartaruga sábia, apontou para o bosque.

— Dizem que lá dentro existe o Lago-espelho. Um lago que mostra o que a gente procura… mas só para quem vai com respeito.

Joana deu um pulo.

— Então vamos! Uma aventura! Vamos achar a lembrança-semente da Lia!

As três colocaram em suas mochilas coisas importantes: uma garrafinha d'água, três biscoitos, um lenço amarelo e uma lupa que Clara dizia ser “olho de gigante”.

Antes de entrar no bosque, Lia se agachou e tocou o chão com carinho.

— Com licença, bosque. A gente só quer passar e aprender — ela sussurrou.

O vento respondeu com um “shhh” gentil, como se dissesse: “Pode entrar, mas com cuidado”.

E elas entraram.

A trilha parecia uma fita verde, desenrolada por mãos invisíveis. As árvores eram colunas de um castelo antigo, e os raios de sol, flechas douradas dançando no ar. De vez em quando, um esquilo aparecia e sumia, como um pensamento rápido.

— Eu estou com um friozinho na barriga — confessou Joana.

— Isso é coragem acordando — disse Clara.

Lia sorriu, mas ainda parecia procurar algo dentro dos próprios olhos.

Logo, encontraram uma placa de madeira com letras tortas: “Caminho do Riacho que Conta Histórias”.

— Água cantando! — Lia apontou. — Eu falei!

As três seguiram o som. O riacho corria pulando pedrinhas, como se brincasse de amarelinha. E a água fazia mesmo um tipo de música: plim-plim, plom-plom.

Joana se inclinou e quase encostou o rosto na água.

— Oi, riacho! Você viu uma lembrança passando?

A água fez uma bolha e um redemoinho pequeno, como se desse risada.

Clara observou com a lupa.

— Olhem! Tem pegadas aqui… mas não são de bicho. Parecem… estrelinhas!

No barro úmido, havia marcas brilhantes, do tamanho de uma moeda.

Lia engoliu seco.

— Será que minha lembrança deixou rastro?

De repente, um sapo com uma coroa de folha apareceu sobre uma pedra. Ele tinha olhos grandes e uma voz engraçada, como uma trombeta baixinha.

— Coá! Três viajantes pequeninas! Para seguir as pegadas de estrela, precisam responder: o que vocês levam, mas não podem colocar na mochila?

Joana coçou a cabeça.

— Humm… biscoito dá para colocar. Lenço dá. Água dá…

Clara pensou mais um pouco.

— A gente leva… respeito.

Lia completou:

— E coragem.

O sapo assentiu, satisfeito.

— Coá! Respeito e coragem não pesam, mas mudam o caminho. Sigam, então. Mas lembrem: o bosque não gosta de mãos apressadas.

As meninas agradeceram.

— Obrigada, senhor Sapo-Rei! — disse Joana, fazendo uma reverência tão grande que quase caiu.

Continuaram seguindo as pegadas de estrela. O bosque parecia ficar mais mágico a cada passo. Havia flores que lembravam sininhos, e uma borboleta azul que parecia um pedacinho de céu voando.

Então veio o primeiro mini-susto.

Um tronco enorme bloqueava a trilha. Parecia um dragão dormindo, atravessado no caminho.

— E agora? — Joana perguntou, com a voz fina.

Clara tocou o tronco.

— Não vamos machucar. Podemos passar por cima, bem devagar, sem arrancar musgo.

Lia olhou para o tronco como se ele pudesse acordar.

— Com licença, senhor tronco — ela disse, e deu um passo.

As três subiram com cuidado. O musgo era macio como tapete. Lá de cima, viram algo cintilando entre as árvores.

— Um brilho! — Joana apontou. — Parece… uma lâmpada de vaga-lume!

Mas, quando chegaram, era só uma gota de resina brilhante no galho, dourada como mel.

Lia suspirou.

— Não é minha lembrança… mas é bonito.

Clara sorriu.

— Às vezes, a gente encontra beleza no caminho. Isso já é um presente.

E elas seguiram, mais determinadas.

Parte 2: O Guardião das Coisas Esquecidas

O caminho levou a uma clareira onde o ar parecia mais fresco, como se alguém tivesse aberto uma janela no mundo. No meio, havia uma árvore tão grande que parecia segurar o céu com os braços. Em seu tronco, uma porta pequena, redonda, como a entrada de uma casinha.

Bateram.

Toc, toc.

A porta abriu rangendo, e apareceu uma criatura curiosa: um velhinho feito de casca de árvore, com barba de líquen e olhos que pareciam duas avelãs brilhantes.

— Quem me chama? — perguntou ele.

Lia deu um passo à frente. Ela era sonhadora, mas também tinha um jeito calmo, como quem escuta o silêncio.

— Nós somos Lia, Clara e Joana. Eu… eu perdi uma lembrança. Viemos procurar.

O velhinho inclinou a cabeça.

— Eu sou o Guardião das Coisas Esquecidas. Aqui chegam botões sem casaco, palavras que ninguém disse, e lembranças que se escondem. Mas eu não devolvo por devolver. Eu ensino a procurar com o coração.

Joana sussurrou para Clara:

— Ele parece uma biblioteca viva.

Clara assentiu.

O Guardião abriu a mão e mostrou três sementes pequenas, cada uma de uma cor: verde, azul e dourada.

— Para atravessar a Ponte das Brumas e chegar ao Lago-espelho, cada uma de vocês deve escolher uma semente. Ela vai lembrar vocês de um valor. Sem isso, o lago vira apenas água.

Lia olhou as sementes como se fossem estrelas caídas.

— Posso escolher a dourada?

— Sim — disse o Guardião. — A dourada é a semente do respeito.

Clara escolheu a azul.

— A azul é a semente da curiosidade — explicou ele.

Joana pegou a verde.

— A verde é a semente da coragem — disse o Guardião, piscando.

Ele apontou para um caminho estreito, onde a névoa dançava.

— Sigam. E lembrem-se: o mundo é um livro. Quem rasga páginas perde histórias. Quem cuida, encontra capítulos novos.

As meninas agradeceram e guardaram as sementes no bolso, como pequenos tesouros quentinhos.

A Ponte das Brumas apareceu logo adiante. Era uma ponte fininha feita de pedras claras, e por baixo passava um vale cheio de névoa. A névoa subia e fazia cócegas no tornozelo.

Joana engoliu em seco.

— Eu… eu consigo. Eu consigo — repetiu, como um tambor pequeno no peito.

Clara falou:

— Vamos dar as mãos. Assim ninguém fica sozinho no medo.

Lia fechou os olhos por um instante.

— Minha avó dizia que o medo é só uma sombra. A gente acende uma luz e ele encolhe.

Elas deram o primeiro passo. A ponte rangeu.

Criiic.

A névoa se mexeu, como se tivesse ouvido. Então aconteceu um mini-reviravolta: um bando de pássaros brancos passou voando de repente, bem perto, e as asas fizeram um barulho forte.

Fuuush!

Joana quase soltou a mão de Clara.

— Ai!

Lia apertou a mão dela.

— Estou aqui, Joana. Respira comigo. Um… dois… três.

Joana respirou. A semente verde em seu bolso parecia esquentar.

— Eu sou corajosa como… como um leãozinho! — ela disse.

— E eu sou curiosa como um gato — completou Clara, e riu.

— E eu sou respeitosa como uma guardiã da floresta — disse Lia, e sentiu o peito ficar mais leve.

Passo a passo, chegaram ao outro lado. E lá estava uma pedra com inscrições antigas, como desenho de estrela.

Clara passou o dedo.

— Parece uma mensagem.

Lia leu com cuidado, devagar, juntando as letras:

“Para encontrar o que procura, ofereça ao mundo o que ele precisa.”

Joana franziu a testa.

— O mundo precisa do quê?

Antes que alguém respondesse, ouviram um choro fininho.

Uééé.

Seguiram o som e encontraram um cervinho pequeno, preso por uma tira de plástico no arbusto. Ele se debatia, assustado.

— Pobrezinho! — Joana correu, mas parou. — Não posso puxar forte.

Clara olhou ao redor.

— Isso não é da floresta. Alguém deixou lixo.

Lia se ajoelhou perto do cervinho.

— Calma. A gente vai te ajudar. A floresta merece respeito… e você também.

Com cuidado, Clara usou a ponta da lupa para levantar a tira. Joana segurou o galho para não machucar. Lia falou baixinho, como canção.

O cervinho se soltou e deu dois pulinhos. Depois parou, olhou para elas e encostou o focinho na mão de Lia, como um “obrigado” sem palavras.

Então algo estranho aconteceu: do lugar onde a tira de plástico estava, brotou uma flor pequena, brilhante, como se a floresta sorrisse por ter sido cuidada.

Lia sentiu um calor no peito.

— Acho que é isso — ela disse. — O mundo precisava de cuidado.

Clara concordou.

— E nós demos.

O cervinho virou e começou a andar devagar, olhando para trás, esperando. Como se dissesse: “Sigam-me”.

— Um guia! — Joana exclamou. — Um guia de patas leves!

E elas seguiram o cervinho rumo ao Lago-espelho.

Parte 3: O Lago-espelho e a recompensa inesperada

Depois de atravessar samambaias altas e pedras que pareciam almofadas, chegaram a um lugar aberto, silencioso e lindo. O Lago-espelho estava ali, grande e calmo. A superfície era tão lisa que parecia uma folha de vidro. O céu se copiava nele, como um desenho.

As meninas ficaram quietas por um segundo, porque a beleza às vezes pede silêncio.

Lia se aproximou.

— Lago-espelho… eu vim procurar uma lembrança. Eu não quero mandar em você. Eu só quero aprender.

A água tremeu um pouquinho, como se piscasse.

Clara e Joana ficaram atrás, segurando as sementes no bolso.

— Você consegue, Lia — disse Clara.

— A gente está aqui — completou Joana.

Lia se ajoelhou na beira. Viu seu rosto refletido. Mas o reflexo parecia ter mais do que ela: parecia ter o brilho de um caminho.

— Lembrança… onde você está? — ela sussurrou.

O lago fez um círculo de ondas, bem no centro. E, como se abrisse uma janela, apareceu uma cena.

Lia viu uma menina menor ainda, ela mesma, sentada no colo da avó. A avó tinha um xale que parecia noite estrelada. E estava contando uma lenda:

“Dentro de cada pessoa existe uma bússola de luz. Quando você respeita o mundo, ela aponta para o bem. Quando você é curiosa, ela encontra caminhos. Quando você é corajosa, ela atravessa tempestades.”

Lia sentiu os olhos encherem de água, mas era uma água boa, água de rio que lava tristeza.

— Eu lembrei! — ela disse, sorrindo e chorando ao mesmo tempo. — Era isso! A avó me contou da bússola de luz… e eu lembro que eu ri porque ela disse que meu coração era um mapinha.

Joana bateu palmas baixinho.

— Que lembrança linda!

Clara inclinou a cabeça.

— Então… a lembrança não era só uma imagem. Era uma mensagem.

Lia assentiu. E, naquele instante, as sementes no bolso das três começaram a brilhar. A dourada, a azul e a verde fizeram um brilho que dançou no ar como três vagalumes.

O lago respondeu com uma surpresa: bem na beira, uma pequena caixa apareceu, feita de madeira lisa, com um símbolo de estrela e folha.

— Uma recompensa! — Joana cochichou. — Mas a gente não fez nada para ganhar…

Clara corrigiu com doçura:

— A gente fez, sim. A gente cuidou. A gente aprendeu. Talvez seja por isso.

Lia abriu a caixa com cuidado. Dentro havia três coisas:

Um pingente em forma de bússola pequenina, que brilhava como o sol da manhã.

Um caderninho com capa azul, cheirando a papel novo.

E um saquinho de sementes reais, com uma etiqueta: “Plante com respeito”.

Lia olhou para as amigas, surpresa e feliz.

— É para nós três.

Joana pegou o caderninho.

— Eu posso desenhar nossas aventuras aqui!

Clara tocou o pingente.

— E a bússola… talvez seja a nossa “bússola de luz”.

Lia segurou o saquinho de sementes.

— E essas… a gente vai plantar. Para devolver ao mundo o que ele nos deu.

O cervinho apareceu perto, como se fosse parte da magia do lago. Ele balançou a cabeça, satisfeito, e foi embora, pulando como uma nota musical.

As meninas sentaram na grama e dividiram os biscoitos. O céu estava tão azul que parecia sorrir.

— Lia — disse Joana —, você achou a lembrança. E agora?

Lia olhou para o lago mais uma vez. O reflexo dela parecia mais firme, como se tivesse ganhado um contorno de coragem.

— Agora eu sei que minha lembrança-semente virou árvore aqui dentro — ela apontou para o peito. — E eu sei que, quando eu esquecer alguma coisa, eu posso procurar de novo… com calma, respeito e amigas.

Clara fechou o caderninho com cuidado, como quem fecha um tesouro.

— A aventura ensinou uma coisa: o mundo fala com quem escuta.

Joana levantou, animada.

— Vamos voltar para casa e plantar as sementes! E depois… depois a gente pode ter outra aventura!

As três riram. O riso delas parecia sininho e vento junto.

Na volta, recolheram mais um pedacinho de lixo que encontraram no caminho e colocaram na mochila. Não porque alguém mandou, mas porque elas entenderam: o bosque era como um amigo. E amigo a gente respeita.

Quando saíram do bosque, o sol já estava mais baixo, pintando tudo de laranja. Lia sentiu o pingente da bússola no bolso, quentinho, como se tivesse um coração próprio.

— Obrigada — ela disse, sem saber se falava com as amigas, com o lago, com a avó ou com o próprio mundo.

Clara e Joana responderam do jeito mais simples e verdadeiro:

— Sempre.

E, naquele fim de tarde, três meninas de seis anos voltaram para casa com uma lembrança encontrada, um brilho novo por dentro e uma recompensa inesperada nas mãos: a certeza de que, quando cuidamos do mundo, o mundo cuida da gente também.

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Bosque
Lugar com muitas árvores e plantas, onde animais moram e há trilhas.
Lembrança
Algo que lembramos do passado, como um momento ou sensação importante.
Riacho
Pequeno curso de água que corre entre pedras e plantas.
Resina
Substância pegajosa que sai de árvores, brilhante e dura quando seca.
Clareira
Espaço aberto no meio do bosque onde entra mais luz do sol.
Líquen
Coisa que cresce no tronco das árvores, parecida com um musgo seco.
Musgo
Planta bem macia e verdinha que cobre pedras e troncos.
Névoa
Nuvem baixa e fina que deixa o ar úmido e torna tudo um pouco escondido.
Trilha
Caminho estreito feito para andar entre árvores e plantas.
Cintilando
Quando algo brilha ou pisca com luz pequena e bonita.
Guardião das Coisas Esquecidas
Pessoa que cuida de objetos e lembranças que foram deixadas ou perdidas.

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