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Conto de princesa e príncipe 11 a 12 anos Leitura 16 min.

A berceuse secreta da princesa Leonor

A princesa Leonor parte em busca da berceuse do reino, reunindo três fragmentos que a ensinam sobre silêncio, atenção e responsabilidade enquanto enfrenta desafios que testam seu desejo e seus deveres.

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Princesa (~14 anos) ao centro, rosto doce e determinado, cabelo castanho claro trançado, segurando na palma uma pequena nota luminosa azul que emite partículas; Baltasar, gato cinzento e corpulento, sentado em almofadas ao lado, observa; Dona Margarida (≈50 anos) ao fundo à esquerda, elegante e benevolente, segurando um pequeno sinete dourado e sorrindo; o rei Afonso ausente, seu selo sobre uma mesa ao fundo à direita; ambiente: quarto-torre do palácio com grande janela ogival e vitral multicolor projetando reflexos vermelhos, azuis e dourados no chão de pedra, tapeçarias antigas e uma pequena fonte interna refletindo a lua; situação: a princesa descobre a “Nota da Fonte” mágica — luz azul forma ondas musicais visíveis, vitral colore o ar, noite íntima e tranquila com contraste entre a luz fria da nota e o calor dos vitrais; estilo: traço mangá nítido, expressões marcantes, cores saturadas nos vitrais, texturas detalhadas e iluminação dramática com reflexos cintilantes. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1 — As Torres de Marfim e o Segredo da Princesa

No Reino de Lúmen-Claro, as torres de marfim erguiam-se como dedos de lua apontando o céu, e os vitrais multicolores espalhavam no chão rios de luz: azul de lago, vermelho de romã, dourado de mel. Nas galerias do palácio, tapeçarias antigas contavam epopeias com fios tão vivos que pareciam respirar: cavaleiros bordados galopavam, dragões costurados fumegavam, e estrelas de prata piscavam quando ninguém olhava.

A princesa Leonor cresceu entre essas paredes encantadas com a mesma naturalidade com que um pássaro aprende o vento. Era espontânea: falava com as estátuas, ria com os corredores ecoantes e, quando pensava depressa demais, seus passos faziam a corte correr atrás como se perseguisse um cometa.

Mas havia um segredo que ela guardava como se fosse uma pérola no bolso do coração: Leonor sonhava, em silêncio, ouvir uma canção de embalar. Não uma música qualquer, tocada para banquetes; queria uma berceuse — uma melodia simples, macia, capaz de fechar os olhos do mundo por um momento e trazer paz.

Numa noite em que o luar parecia polir as torres, Leonor parou diante de um vitral que mostrava uma criança adormecida num barco de nuvens. “Como será que soa isso?”, murmurou.

A dama de companhia, Dona Margarida, aproximou-se com um leque que cheirava a lavanda. — Alteza, já é tarde. Amanhã há o Ensaio das Trombetas Reais.

— Trombetas acordam até as pedras — Leonor suspirou. — Eu queria o contrário: algo que adormecesse as preocupações.

Dona Margarida franziu os lábios, como quem tenta amarrar um pensamento inquieto. — Um desejo bonito pode ser também uma tarefa, princesa. E tarefas... pedem responsabilidade.

Leonor assentiu, embora o desejo ainda brilhasse dentro dela como uma vela escondida.

Capítulo 2 — A Tapeçaria que Sussurrou um Caminho

No dia seguinte, o palácio estava em alvoroço: pajens corriam com partituras, músicos afinavam instrumentos e o Mestre do Cerimonial ensaiava reverências como se cada uma fosse uma batalha.

Leonor, porém, escapou — não por maldade, mas por impulso, como quem segue uma borboleta sem perceber. Entrou na Grande Galeria das Tapeçarias, onde o ar tinha cheiro de lã antiga e histórias guardadas.

No centro, uma tapeçaria diferente chamava. Mostrava uma estrada de estrelas que levava a uma torre isolada, envolta em névoa. A princesa aproximou-se e, então, algo inesperado aconteceu: o fio prateado da estrada tremeluziu, e um sussurro saiu do tecido, fino como o som de uma harpa distante.

“Quem procura a canção do repouso deve primeiro aprender a cuidar do silêncio.”

Leonor deu um passo atrás, os olhos grandes como duas luas. — Quem falou?

Um gato cinzento, gorducho e muito digno, saltou de uma cadeira para o chão. Tinha bigodes como pontos de exclamação e um olhar que parecia ter lido bibliotecas. — Fui eu... quer dizer, foi a tapeçaria. Eu só traduzo, porque ela gosta de ser dramática.

— Um gato que traduz tapeçarias?

— No palácio, até as cortinas têm opinião — respondeu ele, sentando-se. — Chamo-me Baltasar. E tu és a princesa que vive a correr, mas quer uma canção para parar o tempo, não é?

Leonor corou, como se alguém tivesse aberto a gaveta do seu segredo. — Eu só... queria ouvi-la. Uma berceuse.

Baltasar abanou a cauda, como um mestre que avalia um aluno. — Existem três Fragmentos do Acalanto: a Nota da Fonte, o Verso do Vento e o Compasso do Lar. Juntos, fazem a berceuse. Estão espalhados pelo reino, porque a paz é preciosa e não se guarda num só lugar.

— Então eu vou buscá-los! — Leonor endireitou o corpo, já pronta para a aventura.

Baltasar levantou uma pata. — Ir, sim. Mas sem desaparecer como brisa. Responsabilidade, princesa: avisar, preparar, assumir consequências.

Leonor mordeu o lábio. O impulso queria fugir; o coração, porém, entendeu. Ela voltou ao salão, encarou o pai, o rei Afonso, e falou com firmeza:

— Pai, peço permissão para uma missão. Quero buscar a Berceuse do Reino. Prometo regressar antes da próxima lua cheia e manter-vos informado.

O rei, homem de barba escura e olhar de castelo antigo, estudou-a por um momento. — Não é um capricho?

— É um desejo... e um dever. Se existe uma canção que traz descanso, o reino precisa dela tanto quanto eu.

O rei respirou fundo, como quem entrega uma chave. — Leva escolta discreta. E leva este sinete: se houver perigo, manda mensagem.

Leonor inclinou-se, sentindo, pela primeira vez, o peso doce da confiança.

Capítulo 3 — A Nota da Fonte e o Guardião de Vidro

A princesa partiu ao amanhecer, com Baltasar no alforge e uma pequena escolta que seguia à distância, como sombras educadas. O caminho levou-a a um bosque onde as árvores eram altas e estreitas, parecendo colunas de uma catedral verde.

No centro do bosque, havia uma fonte de pedra clara. A água não apenas corria: cantava baixinho, como se cada gota soubesse uma sílaba de segredo.

Leonor aproximou-se e viu, no fundo da água, uma luz azul, como um fragmento de céu. Estendeu a mão.

— Pára — disse uma voz, cristalina.

De dentro da fonte ergueu-se um guardião feito de vidro líquido. Tinha rosto de reflexo e olhos como duas gotas paradas. — A Nota da Fonte não se dá a quem apenas quer possuir.

Leonor engoliu em seco. — Eu não quero possuir. Quero ouvir. Quero... partilhar com o reino.

O guardião inclinou a cabeça, como se a verdade tivesse peso. — Então responde: o que farás se a tua busca atrasar colheitas, ensaios, compromissos? Se o teu desejo criar confusão?

A pergunta era uma pedra no caminho. Leonor pensou no palácio, nas trombetas, nos criados, nas expectativas. Pensou também nos olhos do rei, que lhe deram a chave da confiança.

— Eu vou avisar — disse ela, devagar. — Vou mandar mensagens. Vou assumir o que eu adiar. E quando voltar, não vou fingir que nada aconteceu. Vou ajudar a reparar o que for preciso.

Baltasar, do alforge, miou como quem aprova uma redação bem feita.

O guardião sorriu, e o sorriso fez pequenos arco-íris na água. — Responsabilidade é a concha que não deixa o desejo afundar.

A luz azul subiu e pousou na palma de Leonor: era uma nota, não escrita em papel, mas em brilho. Quando a princesa a aproximou do ouvido, ouviu um som breve e puro, como uma gota que cai no coração.

— Obrigada — sussurrou ela.

O guardião dissolveu-se na fonte. — Segue. E não esqueças: o silêncio também precisa de guardas.

Capítulo 4 — O Verso do Vento e a Ponte das Perguntas

Para encontrar o Verso do Vento, Leonor atravessou colinas onde a relva ondulava como mar. O céu, ali, parecia mais próximo, e as nuvens passavam como ovelhas distraídas.

Ao fim do dia, chegou a uma ponte suspensa sobre um vale profundo. A ponte era antiga, com cordas gastas e tábuas que gemiam como velhos conselheiros. No meio dela, um poste trazia uma placa: “Atravessa quem responde.”

— Isso é simpático — resmungou Baltasar. — Pontes com opiniões.

Quando Leonor deu o primeiro passo, o vento soprou e formou palavras ao redor, rodopiando como folhas:

“Se queres o meu verso, diz-me: quem cuidas quando ninguém te vê?”

Leonor segurou a corda da ponte, sentindo-a vibrar. A pergunta era mais difícil do que parecia. Cuidar sem plateia, sem aplauso, sem cerimónia.

Ela lembrou-se de uma criada jovem que sempre carregava baldes pesados e sorria mesmo cansada. Lembrou-se do jardineiro, com mãos rachadas de frio, cobrindo as plantas antes das geadas. Lembrou-se de Dona Margarida, que às vezes ficava acordada até tarde remendando um rasgo num vestido para que a princesa não se preocupasse.

— Eu... nem sempre reparei — confessou Leonor, e a sua voz saiu honesta, sem enfeites. — Mas eu posso começar. Posso perguntar nomes. Posso agradecer. Posso ajudar sem mandar. Posso ser mais atenta.

O vento pareceu parar por um instante, como um pássaro pousando. Depois, soprou com ternura, e uma frase formou-se, suave como seda:

“Quem aprende a ver, aprende a cuidar.”

Um Verso invisível entrou no cabelo de Leonor, como se se entrançasse nas suas tranças. Ela sentiu, por um momento, uma calma leve — não a calma de dormir, mas a calma de estar presente.

A ponte rangeu, mas ficou firme, permitindo a passagem. Baltasar atravessou com ares de herói, embora tremesse um pouco. — Não contem a ninguém — disse ele. — A minha reputação é feita de dignidade e almofadas.

Leonor riu, e o riso ecoou pelo vale como uma campainha feliz.

Capítulo 5 — O Compasso do Lar e o Salão dos Vitralhos

O último fragmento, o Compasso do Lar, não estava em montanhas nem em fontes. Estava, surpreendentemente, de volta ao palácio.

Quando Leonor regressou, encontrou o reino num daqueles dias em que tudo parece depender de fios finos: o Ensaio das Trombetas falhara, um embaixador estrangeiro chegara mais cedo, e o Mestre do Cerimonial andava tão aflito que quase cumprimentou um candelabro.

Dona Margarida correu ao encontro da princesa. — Alteza! Graças aos céus! O rei está no Salão dos Vitralhos, a tentar manter a paz com palavras e chá.

Leonor sentiu o impulso de se esconder — mas responsabilidade não é cortina. Endireitou os ombros. — Vamos.

No Salão dos Vitralhos, a luz colorida pintava todos como se fossem personagens de um livro ilustrado. O embaixador, um homem alto com bigode pontiagudo, parecia ofendido por tudo: pelo chá, pela demora, pelo silêncio, até pelo canto de um passarinho do lado de fora.

— No meu país — dizia ele — as audiências começam à hora certa!

O rei Afonso mantinha o tom diplomático, mas os seus dedos tamborilavam na cadeira, traindo cansaço.

Leonor deu um passo à frente. — Senhor embaixador, a culpa é minha. Pedi licença para uma missão e o palácio reorganizou-se. Peço desculpa pela confusão.

O embaixador arqueou as sobrancelhas. — Uma missão? De quê? De caçar dragões?

— De procurar uma canção — respondeu Leonor. — Uma canção que ensina a descansar e a cuidar. E, pelo que vejo, hoje todos precisávamos dela, mas eu devia ter preparado melhor a minha ausência.

Houve um silêncio. Não um silêncio vazio, mas um silêncio que escuta.

Então, algo aconteceu: nas tapeçarias da sala, um fio dourado começou a pulsar, como se o palácio reconhecesse a verdade. O Compasso do Lar estava ali, escondido no ritmo das coisas bem feitas: na pontualidade, na atenção, no respeito pelas pessoas.

Baltasar saltou para uma mesa e, com um ar inesperadamente solene, empurrou um pequeno sino de prata. O sino tilintou uma vez — um compasso simples, firme.

O rei olhou para Leonor, e no seu olhar havia orgulho e alívio. — A minha filha está a aprender a governar o próprio coração.

Leonor virou-se para os criados e músicos. — Eu ajudo a reorganizar o ensaio. E depois faremos a audiência como deve ser.

O embaixador, talvez tocado pela honestidade, relaxou o bigode. — No meu país, também valorizamos quem assume. Aceito o pedido de desculpas.

A sala pareceu respirar. O Compasso do Lar entrou no peito de Leonor como um relógio manso, marcando um tempo que não apressa nem atrasa: apenas guia.

Capítulo 6 — A Berceuse e o Manto Pousado

Nessa noite, o palácio ficou mais quieto. Não por ordem, mas por acordo, como se todos tivessem combinado falar baixinho para não acordar as estrelas.

No quarto da princesa, as cortinas balançavam como velas num mar calmo. Leonor sentou-se perto da janela. Baltasar enroscou-se numa almofada com a seriedade de um conselheiro em miniatura.

— Tens os três? — perguntou ele, com voz sonolenta.

Leonor fechou os olhos. A Nota da Fonte brilhava na memória como gota de luar. O Verso do Vento dançava leve nas tranças. O Compasso do Lar batia tranquilo no peito. Ela juntou tudo, não com as mãos, mas com a atenção — como quem reúne pássaros sem os prender.

E então a berceuse nasceu.

Não foi uma trombeta, nem um coro grandioso. Foi uma canção delicada, como um cobertor de som. A melodia parecia caminhar devagar pelos corredores, apagando arestas, alisando preocupações, ensinando o ar a ser macio. Até as tapeçarias, tão cheias de batalhas, pareceram descansar as suas figuras bordadas.

Leonor ouviu e sentiu lágrimas mornas, não de tristeza, mas de reconhecimento. O seu sonho secreto não era um luxo: era um lembrete de que até reis e criados, embaixadores e gatos tradutores, precisam de um lugar seguro dentro de si.

No dia seguinte, Leonor fez algo simples e poderoso: chamou os músicos e pediu que aprendessem a berceuse para tocar nas enfermarias, nas casas onde havia bebés, e nas noites em que o medo visitasse alguém.

— Mas, Alteza — disse um violinista — e se a canção perder a magia?

Leonor sorriu. — A magia não está em guardar. Está em cuidar.

Ao cair da tarde, ela percorreu os corredores do palácio agradecendo a quem trabalhara durante a sua ausência. Pediu desculpa onde era preciso. Ajudou a arrumar partituras, a dobrar panos, a organizar horários. Cada gesto era como um ponto de costura a prender o reino ao seu melhor tecido.

Quando a noite chegou, Dona Margarida entrou no quarto com um manto azul-escuro, bordado com pequenas estrelas. — Para quando o vento estiver atrevido — disse ela.

Leonor pegou no manto com respeito. Não era apenas roupa: era símbolo de proteção e lembrança. Colocou-o com cuidado sobre a cadeira ao lado da cama, bem pousado, como se assenta uma promessa.

Baltasar bocejou. — E agora, princesa?

Leonor deitou-se e escutou, ao longe, a berceuse a correr pelos corredores como um rio de paz. — Agora eu durmo — respondeu ela. — Amanhã eu continuo a aprender. Desejos podem ser asas… mas responsabilidade é o chão que nos deixa voar sem cair.

E, enquanto o manto repousava silencioso, o Reino de Lúmen-Claro adormeceu com a delicadeza de um vitral quando a luz se apaga: ficando, por dentro, cheio de cor.

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Torres de marfim
Grandes torres claras que parecem feitas de um material branco e precioso.
Vitrais
Janelas de vidro colorido que fazem desenhos e deixam passar luz colorida.
Tapeçarias
Tecidos grandes com imagens bordadas, usados para decorar paredes e contar histórias.
Epopeias
Histórias longas e grandiosas sobre feitos de heróis e aventuras antigas.
Berceuse
Canção suave para ajudar alguém a adormecer, uma música de embalar.
Alvoroço
Grande confusão e barulho quando muitas pessoas estão agitadas.
Escolta
Grupo que acompanha alguém para proteger ou acompanhar durante uma viagem.
Alforge
Saco ou bolsa presa ao lado, usado para levar objetos em viagens.
Guardião
Pessoa ou ser que protege algo importante ou cuida de um lugar.
Sinete
Pequeno objeto usado para enviar sinal ou pedir ajuda, como uma campainha.
Nota da Fonte
Parte da canção encontrada numa fonte; é um som especial de água.
Verso do Vento
Parte da canção que vem do vento, uma ideia ou linha musical leve.
Compasso do Lar
Ritmo que organiza a casa e as tarefas, parte final da canção.

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