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História fantástica de feitiçaria 9 a 10 anos Leitura 16 min.

A agulha de luz e o jardim de inverno

Lina, uma aprendiz de dez anos, descobre um rasgo num véu entre mundos no jardim de inverno e, com a ajuda de um vidente hesitante e uma agulha de luz, parte numa missão para costurar a fenda e ouvir o eco do outro lado.

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Uma aprendiz de bruxa de 10 anos, Lina, de rosto redondo e olhos grandes e brilhantes, cabelos castanhos em tranças, ajoelhada, concentrada e corajosa, costura com uma agulha fina de luz prateada um rasgo translúcido azul-azulino cintilante no ar; atrás dela está Tomé, vidente de cerca de 40 anos, magro e atento, preocupado, segurando um pequeno baralho de cartas móveis; a mestra Selma, professora de cerca de 50 anos, cabelos grisalhos trançados e olhar benevolente e sério, fica à entrada do jardim de vidro; o cenário é um jardim de inverno envidraçado com serra elevada e orvalho nas paredes, plantas verde-esmeralda luxuriantes e flores coloridas que parecem sussurrar, ao centro um canteiro circular de terra escura cercado por vasos antigos e uma grande teia de aranha de fios prateados, atmosfera suave, mágica e reconfortante. reportar um problema com esta imagem

Capítulo 1: O Sussurro do Jardim de Inverno

Lina tinha dez anos, um chapéu pontudo ligeiramente torto e uma confiança que teimava em ficar de pé mesmo quando tudo parecia escorregar. Na Escola da Rua das Brumas, chamavam-lhe “aprendiz” com um tom importante, mas Lina preferia pensar que era uma exploradora de coisas que ninguém via.

Nessa tarde fria, a mestra Selma mandou-a a um lugar proibido para alunos sem supervisão: o jardim de inverno, um salão de vidro no fundo do pátio, onde as plantas viviam como se soubessem segredos antigos. A ordem viera com um aviso muito sério:

“O véu entre os mundos está a rasgar. E há um ponto de costura… lá dentro.”

Lina empurrou a porta. O ar cheirava a terra húmida e a hortelã. As gotas de condensação no vidro faziam a luz parecer líquida. E havia sons, sim, sons—não passos nem vento, mas palavras pequeninas, como se cada folha tivesse uma boca invisível.

“Sss… cuidado…”

“Não pises a raiz que sonha…”

“Ela chegou, ela chegou…”

Lina engoliu em seco, mas sorriu. “Olá. Eu sou a Lina. Não venho arrancar ninguém.”

Um ramo de hera mexeu-se, como um braço a apontar, e as begónias abanaram as flores como quem cochicha numa sala de aula. No centro do jardim havia um canteiro circular, e acima dele tremia algo que não devia estar ali: uma fenda fina no ar, como um risco num tecido invisível. De vez em quando, a fenda soltava um brilho azulado e fazia cócegas nos olhos de Lina.

Ao lado do canteiro, pendia uma teia de aranha enorme, mas estranhamente bonita, como renda feita de luar. E no meio da renda, preso sem rasgar nada, estava um fio prateado, solto, como se alguém o tivesse puxado com pressa.

Lina aproximou-se devagar. A mestra Selma tinha dito que o véu era como um pano que separa o mundo normal de… “outras salas”, que se abrem por descuido. E que, se o pano rasgasse de vez, coisas perdidas poderiam cair cá dentro—ou nós podíamos cair lá.

Lina estendeu a mão e sentiu um arrepio quente, como quando se segura uma chávena de chocolate em dia de chuva. O fio prateado vibrou, e uma palavra ecoou, baixinha, como vinda de um corredor longínquo:

“Cos… tu… ra…”

“Costura,” completou Lina, com os olhos brilhantes. “Eu consigo.”

Capítulo 2: A Agulha de Luz e o Mapa de Pétalas

Na mochila, Lina levava o que toda aprendiz responsável leva: uma pedra que ronca quando está com fome (ninguém sabia porquê), três penas, uma fita com nós e um estojo de madeira para emergências mágicas. Dentro do estojo havia uma agulha fina, feita de um metal que parecia luz solidificada—um presente da mestra Selma, com um bilhete: Para quando precisares ser corajosa com delicadeza.

Lina tirou a agulha e ficou a olhar para a fenda no ar. Costurar o quê, exatamente? O véu não tinha bordas como uma camisa rasgada. Era mais como… um silêncio rasgado.

As plantas começaram a sussurrar mais alto, como um grupo de crianças a dar dicas num jogo.

“Linha prateada…”

“Ponto pequeno, ponto firme…”

“Segue o perfume… segue o perfume…”

Lina fechou os olhos e cheirou o ar. Por trás da hortelã e da terra, havia outro aroma: laranja e eletricidade, como casca fresca e trovoada distante. Ela seguiu o cheiro entre vasos de samambaias que pareciam escovas verdes e orquídeas que piscavam, sim, piscavam—Lina tinha a certeza.

No chão, pétalas caídas formavam um desenho. Não era um acaso; eram setas, curvas, um mapa feito pelo vento ou por mãos invisíveis. O mapa levava até uma estufa menor dentro do jardim de inverno, uma espécie de casinha de vidro, mais quente e mais silenciosa.

Lina entrou e viu um espelho antigo encostado à parede. O espelho estava rachado, mas não refletia o seu rosto. Refletia um lugar diferente: um corredor comprido com portas que respiravam, como se estivessem a tentar decidir se abriam ou não.

E do espelho vinha o eco de uma voz, muito longe, como se falasse por um tubo:

“Não… não… ainda não…”

Lina franziu o nariz. “Quem está aí?”

Nada respondeu diretamente. Só o eco, repetindo-se, mais fraco: “ainda não…”

Lina olhou para a agulha de luz e para o fio prateado que trazia preso à ponta dos dedos, como se a linha a tivesse escolhido. O plano apareceu na sua cabeça, simples e assustador: precisava de encontrar o ponto certo do véu, aquele que ligava o corredor do espelho ao jardim, e fechar o rasgão com pontos mágicos.

Ela endireitou o chapéu. “Está bem. Se o véu é um pano, eu vou tratar dele como trataria do meu casaco favorito. Sem drama.”

Uma rosa num vaso soltou um sussurro que soou quase como uma risadinha.

Capítulo 3: O Vidente que Duvidava

Quando Lina saiu da estufa pequena, deu de caras com alguém sentado num banco de madeira, como se sempre tivesse estado ali. Era um homem magro, com uma capa cheia de bolsos e um lenço às riscas. Tinha um baralho de cartas na mão e um olhar preocupado, como quem perdeu algo dentro da própria cabeça.

Ele levantou as sobrancelhas ao ver Lina com a agulha brilhante. “Ah. Então é hoje.”

“Hoje o quê?” perguntou Lina.

“Hoje em que as coisas… escorregam,” disse ele. Depois pigarreou, como se não tivesse a certeza do som da própria voz. “Eu sou Tomé. Sou vidente.”

“Um vidente!” Lina sentiu um entusiasmo a saltar-lhe no peito. “Então diga-me como costurar o véu.”

Tomé olhou para o jardim de inverno, para as plantas sussurrantes, para a fenda no ar. As mãos dele tremiam um pouco. “Eu vejo possibilidades. Mas… às vezes… elas mudam quando eu as digo. E eu não gosto de estragar.”

Lina inclinou a cabeça. “Então não diga o final. Diga só o próximo passo.”

Tomé pareceu aliviado, como se ela lhe tivesse tirado um peso do bolso mais pesado. Ele baralhou as cartas, tirou uma e virou-a: não era uma carta comum. A imagem mexia-se. Mostrava uma agulha a atravessar uma sombra, e, ao fundo, um sino de vidro a vibrar.

“O próximo passo,” murmurou Tomé, “é encontrar o nó do rasgão. O lugar onde o véu está mais frágil. Está… ligado a um som.”

“Um som?”

Tomé fechou os olhos. “Um eco que responde desde longe. Como se alguém lá do outro lado estivesse a imitar… ou a chamar.”

Lina lembrou-se da voz no espelho: ainda não. “Eu ouvi um eco.”

Tomé abriu um olho, hesitante. “Ouvir não basta. Tens de responder. Mas com cuidado.”

“Eu sou cuidadosa,” disse Lina, e nesse instante a pedra que ronca na sua mochila soltou um grunhido. Lina corou. “Quase sempre.”

As plantas sussurraram com uma alegria suave, como se aprovassem a honestidade.

Tomé levantou-se. “Posso ajudar… talvez. Se eu não atrapalhar.”

Lina sorriu. “Atrapalhar é quando a gente desiste. Vem comigo.”

E assim, a aprendiz e o vidente duvidoso caminharam até ao canteiro circular, onde o rasgão brilhava como um olho semicerrado.

Capítulo 4: A Costura do Véu

Lina ajoelhou-se perto da fenda. De perto, o ar parecia ter textura, como tecido fino. A linha prateada começou a deslizar, procurando um caminho, e a agulha de luz aqueceu na mão de Lina, como se estivesse pronta para trabalhar.

Tomé ficou atrás, segurando o baralho, a morder o lábio. “Lina… e se… e se do outro lado houver algo que não quer ser fechado?”

Lina pensou nisso. O mundo extraordinário era cheio de maravilhas, mas também de coisas que podiam assustar. Mesmo assim, lembrou-se da mestra Selma, do aviso sério, e de como as plantas ali dentro pareciam querer proteção, não confusão.

“Se alguém do outro lado precisar de ajuda,” disse Lina, “eu posso voltar a abrir uma porta quando for seguro. Mas um rasgão não é uma porta. É uma ferida.”

Ela espetou a agulha no ar.

Foi como atravessar água gelada e quente ao mesmo tempo. Lina puxou a linha, fez um ponto pequeno, e o brilho azulado tremeluziu. As plantas prenderam o sussurro, como se toda a estufa estivesse a conter a respiração.

Então o eco voltou, claro, vindo do espelho e de algum lugar ainda mais distante:

“Não… não…”

Tomé estremeceu. “Vês? Está a pedir para não fechares.”

Lina parou, com a agulha suspensa. O eco não soava zangado. Soava… assustado. Como alguém a tentar dizer a coisa certa e a dizer a errada.

Lina aproximou a cara da fenda e falou num tom firme e gentil: “Eu estou a costurar. Se estás com medo, diz-me porquê. Eu ouço.”

Houve um silêncio tão grande que Lina ouviu uma gota cair de uma folha. Depois, o eco respondeu, diferente, como se a palavra tivesse finalmente encontrado o casaco certo:

“Não… sozinha.”

Lina sentiu o coração apertar e abrir ao mesmo tempo. “Não estás sozinha,” disse ela. “Eu estou aqui.”

Tomé engoliu em seco. “E eu… eu também.”

A fenda brilhou, e por um instante Lina viu, do outro lado, um pedaço do corredor do espelho. Uma sombra pequena encostada a uma porta, como uma criança que se perdeu numa casa enorme. Não era um monstro. Era apenas… uma presença. Um medo.

Lina fez mais um ponto. E outro. Cada ponto parecia juntar não só tecido, mas coragem.

As plantas voltaram a sussurrar, desta vez como uma canção baixinha:

“Ponto firme…”

“Ponto certo…”

“Costura esperança…”

Mas o rasgão resistiu no centro, como se ali houvesse um nó invisível. A linha prateada enroscou-se, e a agulha de luz cintilou, quase a apagar.

Tomé deu um passo à frente. “O nó,” disse ele, com a voz ainda tremida, “precisa de uma promessa.

Lina olhou para ele. “Uma promessa?”

Tomé assentiu, e por uma vez parecia ter certeza. “Promete que o extraordinário e o comum não precisam ser inimigos. Promete que vais respeitar os dois.”

Lina respirou fundo. Ela gostava de magia, mas também gostava do cheiro do pão na cozinha, do som das bicicletas na rua, da risada da sua mãe quando o chá derramava e ninguém se zangava.

Ela falou para o rasgão, como se falasse para os dois mundos: “Eu prometo. Vou cuidar do que é comum e do que é mágico. E vou lembrar que eles se dão as mãos, mesmo quando a gente não vê.”

A linha prateada soltou-se do nó com um suspiro suave, como quando se desata um laço apertado. A agulha aqueceu de novo. Lina deu o ponto final.

O brilho azulado diminuiu até virar uma luz mansa, depois nada. O ar ficou inteiro. O jardim de inverno pareceu mais quente, como se tivesse voltado a caber dentro de si.

Capítulo 5: O Eco que Responde de Longe

O espelho antigo, lá na estufa pequena, deixou de mostrar o corredor. Agora refletia Lina e Tomé—com os cabelos um pouco despenteados e um ar de quem acabou de correr uma maratona invisível.

Tomé soltou o ar. “Conseguimos?”

Lina levantou-se, limpando as mãos na capa. “Conseguimos. O véu está… remendado.”

As plantas explodiram num coro de sussurros alegres. Uma folha caiu em cima do chapéu de Lina como um aplauso verde. A pedra na mochila ronronou satisfeita, o que era um som muito estranho para uma pedra, mas Lina decidiu aceitar sem perguntas.

E então veio o eco uma última vez—bem longe, como do fundo de um vale—mas agora parecia sorrir.

“Obrigada…”

Lina fechou os olhos, deixando a palavra entrar devagar. Não era um adeus triste. Era um obrigado que fazia cócegas no peito.

Tomé olhou para o nada, como se tentasse ver o som. “Quem era?”

“Alguém que tinha medo,” disse Lina. “Como toda a gente, às vezes.”

Tomé abanou a cabeça, com um pequeno riso sem graça. “Eu vejo muitas coisas, mas nunca sei se devo acreditar nelas.”

Lina deu-lhe um empurrãozinho no braço. “Acredita no que ajuda. E duvida do que magoa. É uma boa regra.”

Ele piscou, surpreso, como se essa frase fosse uma carta nova no baralho. “Isso… isso é sábio para uma criança de dez anos.”

“Obrigada,” disse Lina, muito séria. “Eu treino.”

Quando saíram do jardim de inverno, a luz do fim da tarde parecia mais dourada. A mestra Selma esperava no corredor, com as mãos cruzadas e um olhar que fingia ser severo, mas não conseguia esconder o alívio.

Lina mostrou a agulha de luz. Estava intacta, com um brilho calmo, como uma estrela que aprendeu a descansar.

“Bem,” disse a mestra Selma, “costuraste sem rasgar mais?”

“Só um bocadinho de medo,” respondeu Lina. “Mas eu remendei também.”

A mestra Selma inclinou a cabeça. “Esse é o tipo de costura mais importante.”

Lina olhou para trás, para a porta do jardim de inverno. Lá dentro, ela sabia, as plantas continuariam a sussurrar. E algures, do outro lado do véu, alguém teria encontrado uma porta verdadeira em vez de um rasgão.

Ao caminhar para a sala de aula, Lina sentiu uma certeza simples: havia ligações invisíveis em todo o lado—entre pessoas, entre lugares, entre o comum e o extraordinário. E, quando essas ligações se rompiam, não era preciso ser grande ou perfeita para as consertar.

Bastava ter esperança, uma agulha de luz, e a coragem de responder quando um eco chama de longe.

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Jardim de inverno
Uma sala ou estufa de vidro onde crescem plantas mesmo no frio.
Véu
Uma camada que separa duas coisas, como um pano entre dois mundos.
Costura
Ação de juntar tecidos com linha e agulha, para fechar rasgos.
Fenda
Uma abertura estreita e comprida, como uma racha num tecido.
Condensação
Gotas de água que aparecem quando o ar quente encontra superfície fria.
Hortelã
Uma planta com cheiro forte usada em chás e comidas.
Hera
Planta trepadeira que sobe paredes e vasos com folhas verdes.
Begónias
Tipo de plantas com flores coloridas, usadas em jardins e vasos.
Teia de aranha
Estrutura feita por aranhas com fios finos, parecida com renda.
Estufa
Construção de vidro ou plástico usada para proteger plantas.
Espelho
Superfície que reflete a imagem do que está à frente.
Eco
Som que volta quando bate numa parede ou em outro lugar fechado.
Vidente
Pessoa que diz ver coisas do futuro ou de outro mundo.
Promessa
Palavra dada a alguém de que vais fazer ou não fazer algo.
Pétalas
Partes finas e coloridas que formam as flores.
Sussurro
Fala muito baixa, feita quase em segredo.
Sussurrar
Falar muito baixo, como um segredinho para alguém.

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